Mais um pouco sobre split positivo e negativo na Maratona

Dias atrás eu postei um texto explicando os porquês um split positivo na maratona, ou seja, correr a primeira metade mais veloz que a segunda, pode ser a melhor abordagem a um amador do ponto de vista fisiológico da prova.

Obviamente não dá para esgotar o tema porque provar isso com estudos é quase inviável, ainda que os defensores do split negativo também não utilizem nenhum argumento que não seja a fé. Mas tentemos sair um pouco dela.

splits 800 1500Basicamente temos que uma prova tem suas demandas fisiológicas (e por conseguinte qual split é o mais recomendado) em função do tempo de esforço da prova. Assim sendo, uma mesma prova (200m, 800m ou 1.500m, por exemplo), têm atletas correndo splits opostos em função do nível do corredor (tempo para concluir a distância).

Basicamente estou dizendo que um maratonista amador pratica um esporte que é mais parecido com um ultramaratonista correndo 50km (~3h00) do que com um queniano que corre 42km em 2h05. Se a elite dos 50km (em asfalto e plano) é em split positivo, e esses atletas correm mais rápido do que cerca de 99% dos amadores, por que insistir no split negativo que não seja querer IMITAR algo que não conseguimos, que é o que os quenianos fazem ao correrem 42km em 2h03?

Os argumentos mais apressadamente repetidos não me convencem. Não que eu seja chato, é que são argumentos frágeis mesmo.

A elite da maratona faz”. Sim, faz, mas eles correm em 2h03. Quando corriam em 2h10 não conseguiam fazer. A elite dos 50km corre mais rápido que 99% dos amadores correm 42km. E não consegue fazer negativo.

Split PositivoSplit positivo é arriscado”. VIVER é arriscado. Correr maratona é arriscado. Quando alguém argumenta que correr a 1a parte mais veloz pode quebrar o atleta, gosto de lembrar que rodando por 42km também há o risco de se quebrar. MUITAS das pessoas que tentam correr split negativo quebram. É mais ou menos assim, jogando ao extremo: se eu afirmar que fazer um Ironman com uma bicicleta speed italiana é melhor do que fazer com uma Mountain Bike, isso não faz do Ironman algo fácil. Estou apenas dizendo que com ela há mais chances de você conseguir uma marca que seja mais rápida. De qualquer jeito, com Speed ou Mountain Bike, você vai penar durante a prova.

A Fisiologia diz que split negativo é melhor”. É mesmo?! Não! Ela não diz NADA sobre a distância! Pelo contrário, ela mostra que é mais correto você basear qual o melhor split baseando-se no tempo de esforço da atividade, não no nome da corrida!

Ah, mas é que eu…” A corrida é cheio de “eguizofrenia”, uma mistura de egocentrismo (o corredor tende a achar que o mundo gira em torno da corrida dele) com esquizofrenia, pois não adianta você espancá-lo com evidências, ele vive em outra realidade, algo paralelo, só dele, regido por regras próprias. Porém, sinto informar, ninguém dá a mínima para nossa experiência pessoal. Ela é no máximo uma anedota, um causo… pode ser usada na conversa do bar, mas não para construir um todo com algo baseado na individualidade.

Mas aí chegamos ao coletivo de anedotas. O que será que ela nos mostraria?

Separei dados dos quase 6.500 corredores das Maratonas de Porto Alegre de 2012 a 2015. Por quê? Porque ela é plana, relativamente fria (o calor interfere muito na 2a parte), brasileira e, mais importante de tudo, essas edições são as que oferecem as parciais dos corredores nas duas metades. Repare na distribuição dos tempos! Homens em azul, mulheres em rosa. Volto depois!

Splits POA

Você tem que ler o gráfico da seguinte maneira: splits negativos ficam “abaixo” da linha preta (que por sua vez é quem corre em velocidade muito constante as duas partes e, por isso mesmo, fiz dela bem grossa, quase que encobrindo todos aqueles que fazem em um split muito leve, seja ele negativo ou positivo).

Vou repetir: a linha preta é grossa justamente para anularmos aqueles que fazem a prova em ritmo constante e/ou em leve split, seja ele positivo ou negativo. Por quê? Porque splits baixos (30 segundos por exemplo, equivalem a menos de 1 segundo por quilômetro) são muito ruído e pouca informação. Continuando…

Consequentemente, o split positivo fica “acima” dessa diagonal preta. Quanto mais para a esquerda E mais para baixo fica o atleta, mais rápido é o corredor.

Pois eis que se o split negativo fosse melhor, NÃO seria esse o perfil da nuvem!

Lógico que sempre podemos negar a realidade. Um grande amigo costuma dizer que é muito duro quando a realidade não obedece nossas vontades. É um pecado quando buscamos algumas respostas que não sabemos e misturamos torcida com o que temos de fato em observações. Conheço alguns corredores amadores bons, outros nem tanto, que tiveram sucesso (recorde pessoal) com split negativo. Como explicar?

Não há como explicar, até porque eu poderia ser desonesto intelectualmente afirmando que ele poderia ser mais rápido ainda se usasse o split positivo. Isso seria mentira. Ouvi ainda muito argumento bem interessante, assim como ouvi muito argumento burro mesmo, dizendo para olhar para a lógica. A lógica não é quem diz primeiro uma regra. Ela tem que ter alguma base. Os livros de fisiologia não dizem absolutamente nada sobre isso. Basta buscar. Foi quando me deparei com o texto do Ray Charbonneau (a quem não canso de referenciar) e me perguntei se não estávamos apenas repetindo uma informação sem questionar. Aí saí atrás dos números e me deparei com essa surpresa.

*esse texto ficou pronto sem um levantamento de dados do Nelton Araújo com dados da Maratona de Berlim de 2015. Nele, temos que os atletas correndo abaixo de 3h00 (6,6% dos atletas) fazem split negativo somente em torno de 15 a 25% das ocasiões, sem um claro padrão entre ritmo e split. Ou seja, os mais rápidos e mais experientes NÃO teriam o negativo como padrão. É muita fé achar que o menos experientes teriam maior controle que esses.

**antes de mais nada, eu mesmo acredito que o melhor split (desconsiderando altimetria) seja um levemente positivo… um split negativo seria mais conservador, mas menos eficiente e fica aquém das reais possibilidades do atleta. Mas o positivo é também mais arriscado, ainda que coisas especiais não aconteçam sem uma certa dose de risco.

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57 pensamentos sobre “Mais um pouco sobre split positivo e negativo na Maratona

  1. […] negativo nos 42km, ou seja, correr a segunda metade mais rápido que os primeiros 21km. Aqui e aqui eu explico melhor, mas basicamente o ponto é: split em uma prova tem uma forte ligação com o […]

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  2. […] de prova. Seja dos 100m aos 42km! Uma coisa eu já defendi aqui em uma série de posts (aqui, aqui e aqui) é que split negativo na maratona (2ª metade mais rápida que a primeira não é […]

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