Atividade Física: uma ferramenta ineficiente para perder peso ou combater a obesidade.

*continuando o post de ontem….

(Atividade Física) é o melhor remédio JAMAIS criado! Mas ele é um remédio que não serve para perda de peso.” Yoni Freedhoff, University of Ottawa.

O exercício como ferramenta (ineficiente) de perda de peso

Da mesma forma que alguém acaba bebendo mais líquidos como resultado imediato de se exercitar mais, a pessoa também come mais quando realiza uma atividade física um pouco mais longa. Analisadas populações de homens que fazem atividade física extenuante consomem mais alimentos que homens em atividades físicas menos intensas. O exercício por si só tem sido demonstrado não ter diretamente grande eficiência no tratamento ou combate da obesidade justamente porque o aumento do gasto energético é facilmente compensado com o aumento da ingestão calórica.

Há uma enorme interdependência entre gasto energético, atividade física e a sensação de fome. Mais atividade física é talvez uma das duas maiores soluções apontadas para quem quer emagrecer. Mas não é sensato crer que uma pessoa poderá fazer esporte (ou qualquer esforço físico duradouro) e não ter ou então aguentar passar fome por longos períodos. Não há força de vontade que vença um desejo de fome contínuo sete dias por semanas, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Mas o mais grave é que ainda assim, insistimos nesse “remédio” de combate ao sobrepeso.

Com a frequência a qual é falado sobre a obesidade como resultado do desbalanço calórico, poderíamos imaginar que isso tenha sido arduamente testado em experimentos rigorosamente controlados em algum momento do passado. Pela enorme dificuldade e custo de se fazer um grande estudo para provar esse ponto, a resposta mais fácil era achar que engordamos porque comemos demais; para isso, bastava fazer uma associação de que quem come muito é gordo, sem buscar descobrir o que era causa e o que era consequência.

Mas a explicação do porquê uma célula de gordura acumula gordura em lugar de transformar esse excesso em energia (calor ou movimento) não é uma questão física, deveria ou poderia já ter sido vista como uma questão biológica. Aceitamos a explicação biológica que na palma das mãos ou no couro cabeludo não haja depósitos de gordura, mas tentamos explicar pela matemática o fato de alguém ir engordando. Usamos a física (e o comportamento da pessoa com sobrepeso) para um e a biologia para outro.

Este conceito de que a atividade física é uma boa ferramenta para perda de peso vem dos anos 50 quando o nutricionista Jean Mayer começou a estudar a relação entre peso e o exercício. Até então, este conceito de atividade física e perda de peso não estava na moda. As análises de Mayer demonstravam que em bebês, crianças e ratos, quanto menos ativos eram eles, mais propensos eram a ter excesso de peso. O que o pesquisador mostrou foi haver relação, sem demonstrar sua causa ou efeito. Mas já era tarde demais, a associação equivocada estava assim montada.

exercise-step-forward-300x297_largeHoje sabemos que o excesso de peso leva à inatividade, mas inatividade não necessariamente leva ao excesso de peso. E esta diferença é crucial porque ela demonstra não ser a falta de movimento a causa da obesidade. Por exemplo, havia um tempo em que ninguém acreditava que exercícios físicos ajudariam ou que eram necessários para perdermos peso. Até os anos 60, médicos e clínicos que tratavam obesos ou pessoas com sobrepeso ignoravam essa alternativa. Para Russell Wilder, um especialista em obesidade e diabetes nos anos 30, obesos tinham mais chance de perder peso em repouso (na cama) do que fazendo esforço físico extenuante, porque isso acabaria por diminuir sua velocidade de emagrecimento.

O que ele e seus contemporâneos já sabiam, e que hoje também sabemos, é que exercício físico gasta insignificantemente poucas calorias do ponto de vista calórico para perda de peso. Um obeso tem que subir vários andares de um edifício para queimar algumas poucas calorias. Se o problema fosse matemático, bastaria esquecer a academia, evitar algumas calorias e a meta estaria atingida.

Além disso, todos sabemos pela própria experiência que esforço físico, cedo ou tarde, gera fome, muita fome. Pouco gasto energético, pouca fome; muito gasto, muita fome. É assim que sempre funcionou. Exercícios físicos vigorosos resultam em uma imediata demanda por uma grande refeição já dizia Hugo Rony da Northwestern University em 1940 em seu Obesity and Leanness.

Basta trocarmos de lugar um estivador que gaste, digamos, cerca de 5.000 calorias por dia por causa de seu trabalho com um advogado que em sua rotina de escritório gaste diariamente 2.500 calorias. É ingenuidade achar que eles não mudarão quase que imediatamente seu consumo calórico. Seria inocência achar que o advogado desapareceria de tanto esforço em um déficit energético diário na nova atividade. Mas há muitos que acreditam que o estivador continuará, indefinidamente, a comer 5.000 calorias mesmo gastando metade disso, a menos que algum nutricionista (só vale se estiver com o CRN em dia!) o oriente do contrário.

A conclusão de que quanto mais gordos estamos, mais sedentários somos, é uma correlação que não nos diz nada, não sabemos o que é causa ou efeito. Igualmente possível é que tanto a obesidade quanto o sedentarismo sejam consequências e ainda sintomas de um mesmo problema. Ou seja, a recomendação para comermos menos e nos exercitarmos mais porque isso fará de você mais magro, quando levada ao extremo, não deixa de ser verdade. A ciência e a história são cheias de exemplos de animais e pessoas que foram levados ao extremo da fome e acabaram perdendo muito peso. Mas isso não combate, necessariamente, nem de forma saudável, aquilo que é a causa do sobrepeso.

Quando somos privados de comida, temos fome, quando nos exercitamos, ficamos cansados. Nosso organismo é regido pela biologia, não pela física, nesse caso, a termodinâmica. É um sistema em homeostase que regula desde nossa pressão arterial, batimentos cardíacos, temperatura, respiração, estado de hidratação etc. Este sistema, visto dessa perspectiva, acaba por nos dizer que um corpo magro não é uma pessoa que necessariamente gosta ou tem a disciplina ou ainda a força de vontade para se exercitar mais, mas nos mostra que aquele organismo em questão é programado de um jeito tal que pega a gordura para transformá-la em energia e não em depósito.

É simplista e equivocado acharmos que obesidade é sobre comer menos e/ou se movimentar mais…

A indústria alimentar e a da atividade física têm muito a ganhar quando permanece a ideia equivocada de que a obesidade seria explicada pela teoria do balanço calórico porque joga o seu controle, principalmente, para a questão da responsabilidade individual. Nesse contexto simplista é a pessoa quem tem a responsabilidade de resistir às tentações e vencer uma suposta preguiça, não o nutricionista ou treinador que tem que rever seus arraigados e antiquados conceitos.

Pois então, primeiro falemos sobre a falsa ideia da preguiça para fazer atividade física.

É inegável que atividade física queima energia, mas como já dissemos antes, estudos atrás de estudos mostram uma enorme ineficiência da atividade física como ferramenta de controle ou perda de peso, MESMO quando os indivíduos são dedicados e os programas bem desenhados. E uma das razões parece ser bem simples e indiscutível: compensando o maior gasto energético, você come mais, suprindo essa maior demanda calórica. Além disso, no esporte, assim como na nutrição, parece não haver uma solução igual para todos; ao olharmos minuciosamente os resultados para os diferentes indivíduos, é mais do que esperado observar que houve os que perderam muito peso, os que pouco se alteraram e até os que ganharam peso, mesmo seguindo à risca as orientações de atividade e dietas prescritas. Basicamente dizendo, a atividade física, orientada ou não, parece ser pouco eficiente como ferramenta de perda de peso.

Justamente essa enorme variabilidade individual, com exemplos do círculo pessoal, serve de argumento e exemplo aos defensores que acham que praticar esportes é bom para emagrecer. Quando fazem isso, eles ignoram os inúmeros exemplos de fracasso entre outras coisas, alegando que as pessoas não seguiram corretamente o modelo seja treinando de menos (por preguiça?), seja comendo de mais (gula?). Os estudos científicos e suas revisões servem justamente para tirar esse caráter pessoal ou de depender somente da memória que providencialmente ignora os insucessos e controla, ainda, esses que falharam provando que o problema não seria a força de vontade, mas de método.

No início da década de 1990, nos EUA, um grande estudo, o Women’s Health Initiative (WHI), foi feito, envolvendo por mais de sete anos quase 50.000 mulheres, com o intuito de entender e estudar o impacto de diferentes dietas (pobre ou rica em gordura) sobre a saúde. O centro da pesquisa não era a relação atividade física e (sobre)peso, mas as conclusões sobre balanço calórico, as quais foram e são reveladoras.

Dessas mulheres, 40% foi instruída aleatoriamente a comer uma dieta pobre em gorduras (low-fat), rica em fibras e com muitas frutas e vegetais. Elas tiveram acompanhamento nutricional para que os pesquisadores se certificassem que todas continuavam na dieta. Esta simples intervenção resultou em uma redução no consumo de gordura de 37% para 29% do total calórico, uma redução das gorduras saturadas de 12% para 9,5% e uma redução de 360 calorias a menos em média por dia. E elas ainda aumentaram em 14% o nível de atividade física. Se o balanço calórico é a causa de nosso ganho (ou controle) de peso, essas mulheres, necessariamente, comendo um pouco a menos diariamente teriam que emagrecer significativamente com o passar dos anos. Porém, quase 8 anos depois e comendo menos, elas perderam em média menos de 1kg. E ainda vale notar que a circunferência abdominal delas aumentou, indicando que o peso perdido foi de massa magra e não gordura.

Em outro estudo, liderado por Timothy Church da University of Louisiana, centenas de mulheres com sobrepeso entraram em uma rotina de exercícios físicos por um período de 6 meses. Um grupo treinava 72 minutos por semana, outros 136 minutos, outros 194 minutos e um quarto grupo era o controle, ou seja, sem treino adicional. Contra todas as expectativas, não houve diferença significativa de peso entre os grupos que treinavam e o grupo controle (sedentário). Pior, algumas até ganharam peso.

Isso aconteceu porque essas mulheres passaram, naturalmente, a comer mais, já que exercício inevitavelmente dá fome por aumentar a necessidade energética. Não há como fugir dessa realidade. Além disso, essa compensação às vezes ultrapassa o mero ato de repor uma necessidade fisiológica maior por energia, psicologicamente, quem treina pode acabar “se premiando” pelo esforço. Em outros casos, se o prêmio não vinha na forma de muito mais comida, vinha na forma de menor atividade física fora do período de treinamento, o indivíduo descansava mais como fruto de mais movimento momentos antes.

Essas conclusões encontram suporte em outros dados. Um estudo publicado em 2008 sobre obesidade infantil, por Steven Gortmaker e Kendrin Sonneville, encontrou que, num período de observação de 18 meses, 538 crianças que se exercitavam, acabavam comendo mais calorias do que as gastas na atividade. Às vezes, esse desbalanço energético era de 10 a 20 vezes maiores do que o da atividade. Ou seja, aquele conceito arraigado que temos de que exercício gera um déficit energético não é necessariamente apoiado pelos experimentos práticos.

Um outro estudo de 11 anos, de Terry Wilkin com 202 crianças desde seus cinco anos de idade, vem dar apoio a essa tese de compensação. Nele, o autor monitora o peso e o nível de atividade física das crianças. O que ele vem descobrindo é revelador: parece não haver diferença entre os pesos e composição corporal delas não importando se são mais ou então menos ativas fisicamente. O estudo ainda está em andamento e pode ser questionado pelo baixo número de indivíduos, mas vem também questionar fortemente a tal “sabedoria popular” que atribui à atividade física uma ferramenta eficiente de controle de peso.

Um achado muito interessante em todos esses estudos é o fato de haver essa capacidade natural de compensarmos os gastos calóricos ao longo do dia. No estudo com as “crianças de Wilkin”, o grupo com mais aulas de educação física (64% mais, para ser mais preciso), ao chegar às suas casas fez o oposto, se movimentou menos. O grupo com menos atividade, se movimentava mais em casa. O resultado foi que ambos os grupos faziam a mesma quantidade de atividade num efeito compensatório.

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Isso faz lembrar a atividade de pessoas que treinam assiduamente para provas mais longas. Um maratonista amador pode sair de casa, num sábado de manhã, para treinar 25km. O seu nutricionista, desconsiderando esse efeito compensatório, adiciona o gasto e a necessidade energética ao de uma pessoa que treinou 25km “a mais”. O problema é que essa pessoa, no sábado, acaba dormindo, pouco se movimentando no restante do dia e evitando até outros compromissos sociais por indisposição física. Ao final do dia, podemos deduzir que ele se aproxima aos gastos de uma pessoa que correu pouco mais de 5km, por exemplo. Se estendermos esse comportamento compensatório para os próximos dois dias (suponhamos que ele volte a treinar somente na terça feira à noite), podemos dizer que ele teve um gasto energético praticamente igual ao de quem nunca sequer sonhou em correr uma maratona. Mas já é tarde demais, em sua dieta prescrita estão lá milhares de calorias pensadas para seus 25km, ignorando toda uma compensação das demais 72 horas.

É, pois uma falácia que o esporte e a atividade física, sejam ferramentas eficientes para combater o sobrepeso. Mas as autoridades, seja por total ignorância ou, mais provável, pelos incontáveis benefícios, outros que o esporte proporciona, não vão deixar de recomendar o esporte como saída para quem busca perder peso, por mais que isso se transforme em frustração, já que não é uma questão de força de vontade, mas de conselhos equivocados.

UM ADENDO: Porém, reforço, não podemos confundir o fato de exercícios não serem ferramentas eficientes para controle e perda de peso com o fato de não os recomendar. Faço questão de reafirmar que os benefícios da atividade física bem-feita são inumeráveis; eles apenas parecem não gerar perda de peso substancial diretamente se não vier junto de mudanças nos hábitos alimentares.

Voltando…

As evidências da baixa eficiência do exercício como promotor do emagrecimento encontram respaldo em muitos estudos bem feitos e controlados. Eu peço de antemão desculpas ao leitor pela sequência de citações, mas elas são fundamentais para questionar uma ideia que é tão enraizada mesmo entre pesquisadores que deveriam questionar isso. Por exemplo, um estudo feito com mais de 200 crianças por 4 anos encontrou que não haver relação do nível de atividade física com o peso corporal.

Uma análise com 18 estudos totalizando 18.200 crianças encontrou que o nível da atividade física não está relacionado com o peso delas, fazendo que a promoção do exercício seja ineficiente no controle da obesidade infantil. São inúmeros os estudos chegando à mesma conclusão: o peso das crianças nada ou muito pouco é afetado com a carga da atividade física, como mostra essa outra extensa compilação europeia. Esta outra, com quase 11.000 crianças, chega ao mesmo: nível de atividade física não apresenta grande correlação com perda de peso.

Entre outras coisas, porque com já dito antes, o aumento da atividade física leva à uma compensação (menos movimento) em horários livres como aponta este estudo. Isto ainda é o que encontrou um estudo dinamarquês com 1.200 crianças que reforça o porquê aulas de educação física não combaterem bem a obesidade.

Mas… adultos não são crianças grandes (nem vice-versa). Será que os efeitos e resultados seriam diferentes em nós?

You-Cant-Outrun-A-Bad-DietUm estudo acompanhando aqueles que treinavam por PELO MENOS 2h30 por semana por 11 ANOS mostrou que os treinados ganharam no período 1,5kg a menos que o grupo sedentário. Outro estudo, com mulheres nigerianas, não encontrou relação do nível do gasto físico energético e a presença de obesidade.

uma cuidadosa compilação com 98 estudos com água marcada revelou haver pouca diferença do total de energia diária gasta e o nível de atividade física das pessoas, questionando o papel dessa para evitar o aumento da obesidade. Um acompanhamento de 10 anos com 5.000 pessoas na Holanda revelou perda de (prestem atenção!) MENOS de 1kg. Mas em um processo de dissonância cognitiva a conclusão dos autores é que “o aumento da atividade física é estatisticamente relevante para perda de peso”!

Pois bem, um estudo com mais de 3.500 pessoas treinando por pelo menos 5 horas POR SEMANA encontrou que eles ganharam entre 2kg (homens) e 6kg (mulheres) a menos em 20 ANOS. Qual a conclusão? Um novo delírio: “os resultados reforçam o papel da atividade física como redutor do ganho de peso”. Dá para acreditar?

A lista parece não ter fim! Um estudo incluindo uma rotina de caminhada diária gerou uma perda que é equivalente a 1kg a cada 5 meses de atividade. Outro com 200 obesos treinando 1 hora POR DIA por UM ano de atividade entre moderada a intenso gerou perda de 1,5kg de peso! Já um acompanhamento por 12 anos com 10.500 homens revelou que 40 minutos por dia de musculação equivalem a uma perda de 500g no período (12 ANOS!). Já um ótimo estudo envolvendo 34.000 mulheres por 13 anos mostra não haver quantidade suficiente de exercícios que possam diminuir o ritmo de engorda. Em média elas ganharam 2,6kg, mas as que treinaram 6 hora por semana por 13 anos, ganharam “apenas” 2,3kg.

Está acabando, prometo!

Um estudo acompanhando por 18 meses com protocolos de 150 ou 300 minutos de exercícios por semana resultou em perda de 700g sendo que 73% dos envolvidos não teve perda de peso. Ou seja, inatividade parece ser resultado, não causa da obesidade!

E eis que deixo talvez o MELHOR estudo no tema para o final! Sei que muito dos que estão lendo são corredores, nada mais apropriado.

Esse estudo de 1989 vem dar força ao que venho dizendo. Voluntários recrutados par correr uma maratona SEM aconselhamento nutricional. Por 18 meses eles treinaram e correram a maratona abaixo de 4 horas, o que é admirável (mais veloz que as médias dos corredores brasileiros e americanos médio, por exemplo), sinal de que treinaram “para valer”! No período eles perderam pouco mais de 2kg. Mas atenção, destes apenas METADE era gordura.

Aseem_Malhotra_Eng_Short1 (1)Resumindo: 18 meses, correndo uma média de 9km por dia e emagreceram pouco mais de 1kg de gordura.

Se você comparar com um conceituado estudo, o Shai study, você tem que as pessoas que foram submetidas a uma dieta low-carb por 18 meses, SEM restrição calórica, ou seja elas podiam comer O QUANTO QUISESSEM e SEM fazer atividade física! Ainda assim essas pessoas perderam o DOBRO dos maratonistas.

E por que correr maratonas por si só “não emagrece”? Essas pessoas ao final do treinamento comiam 400cal a mais! E aqui vai algo fundamental: se elas estivessem em dieta, o estudo não seria mais sobre o efeito apenas do treinamento.

Ou talvez ainda caiba citar aqui um belo estudo de 1975. Mulheres submetidas a 2 horas de exercício (caminhada) por dia tiveram perdas de peso muito discrepantes. Motivo? As que estavam em algum tipo de dieta, perderam peso. As que se exercitaram., mas não tiveram alteração em sua alimentação, não emagreceram, tais quais os maratonistas acima.

Estamos quase chegando (prometo!). Um estudo interessantíssimo de 1993 pode nos dar ideia do peso do esporte no emagrecimento. Em um treinamento de 12 semanas, as mulheres envolvidas foram comparadas e grupo de dieta, grupo dieta mais treinamento e grupo controle. Enquanto o grupo de dieta emagreceu quase 10kg, o grupo dieta MAIS atividade física emagreceu apenas 1kg a mais. Ou seja, isso equivale a MENOS de 10%. aos entusiastas do esporte como promotor de emagrecimento, estamos falando de MENOS de 1kg em 12 SEMANAS de MUITO exercício. Isso não foi um encontrado isolado, porque um estudo de 2009 dessa vez por 6 meses encontrou resultados muito parecidos (na verdade, mais desanimadores à turma que “defende” emagrecer via exercício). As treinadas perdem MENOS de 1kg ao todo em 6 MESES de muito treinamento, algo como MENOS de 10% do peso do exercício no emgracimento.

Por fim (aleluia!), um estudo de 2012 comparou dieta, dieta + exercício e só exercício por 12 MESES. A turma da dieta emagreceu 7,5kg, a de dieta + emagrecimento 9kg e de exercício (sem dieta) 1,8kg. PORÉM, quando você vai analisar os números descobre que a turma do exercício trapaceou, eles FIZERAM dieta! É incrível! O exercício só fez emagrecer QUANDO a pessoa comia MENOS do que já comia! Mais ainda! Leia com carinho: o grupo dieta + exercício foi o que MAIS reduziu a INGESTÃO de comida. Eu ainda estou para conhecer alguém que queira emagrecer e para isso tenha vontade de passar a treinar E comer menos!

Você não consegue compensar uma dieta ruim pelo exercício...

Você não consegue compensar uma dieta ruim com exercício…

MUITO resumidamente:

Querer perder peso através do exercício, por mais que seu nutricionista e treinador afirmem o contrário, nos mostram as evidências e os estudos, que é como querer e tentar encher a sua caixa d´água com um copo. Você vai ver todo o seu esforço desaparecer com a primeira torneira aberta. Estudos nos mostram que emagrecer através do exercício funciona APENAS se houver intervenção na dieta do indivíduo.

Dieta? Emagrece. Dieta mais exercício? Emagrece. Dieta mais aulas de caligrafia? Emagrece. Dieta mais leitura de horóscopo? Emagrece. Ou seja, para emagrecer TEM que haver alguma mudança na dieta.

Exercício aumenta massa mucular, aumenta o tônus, aumento seu condicionamento físico, você se sente bem, mas NÃO faz emagrecer de modo eficiente.

Era isso!

UM ADENDO – 2A PARTE: Se a atividade física não é uma boa ferramenta de perda de peso, como se explicaria tantos casos de sucesso de emagrecimento com a prática de exercício? Antes de qualquer coisa, precisamos lembrar o quanto buscamos pela nossa memória exemplos que deem suporte à uma tese na qual acreditamos. Nesse hábito tão humano, vamos lembrar de exemplos de emagrecimento de algumas pessoas, mas ignoraremos os incontáveis casos de fracasso. E em um exercício de certa forma cruel, ainda culparemos quem não perdeu peso fazendo uso de uma estratégia tão ineficiente.

Além de ser preciso ainda esquecer a questão da associação. Não é raro quem aponte os atletas profissionais, ou mesmo amadores, como prova concreta do esporte como alternativa para combate da obesidade. A pessoa ser atleta e ser magra não explica por si só a questão.

Vejamos usando o próprio esporte como exemplo. Jogadores de basquete e de vôlei são mais altos do que a média populacional. Assim como as atletas de ginástica artística são mais baixas. Era um hábito recorrente décadas atrás mães colocarem seus filhos nas escolinhas de esporte para desenvolver a altura das crianças. Ou ainda temer que suas crianças não atingiriam uma altura adequada, caso treinassem ginástica artística.

Porém, os atletas bem-sucedidos não ficaram grandes por causa do esporte, mas foram destaque em suas disciplinas entre outras coisas JUSTAMENTE por serem mais altos (ou mais baixos) que a média de seus pares. Joguemos a outro extremo, judocas das categorias absoluto ou lutadores de sumô são incrivelmente fortes, mas possuem taxas de gordura também mais elevadas, mesmo sob forte carga de treino. Seria sinal de desconhecimento técnico atribuir a essas modalidades a explicação para sua gordura. Eles se destacam porque seu corpo é forte e gordo.

Os próprios maratonistas quenianos são apontados como suporte à ideia do esporte na perda de peso. Uma explicação evolutiva é justamente que, em um organismo tão geneticamente privilegiado para esse esporte, esses indivíduos queimam muita energia e de forma eficiente. Eles são corredores bons entre outras coisas porque são magros e não o inverso. Nem todas as pessoas no Quênia são corredores, ainda assim, a taxa de obesidade no país é baixíssima. Eles correm porque são magros, não são magros porque correm!

Mas todos temos algum conhecido que passou a treinar algum esporte e perdeu muito peso. Veja bem, não estou negando que esporte ajude de alguma forma na perda de peso, ainda que pequena (10%, 15%?), mas negando SIM que ele seja uma ferramenta eficiente que possa ou deva ser uma abordagem primária visando emagrecimento.

O primeiro fator que é pouco lembrado é o peso que o esporte tem na dieta da pessoa. A pessoa passa a comer mais fazendo esporte. O aumento de ingestão energética é equivalente ao gasto sem que seja necessário um profissional de saúde calculando ou orientando quanto a esse ponto. Mas junto com a prática do esporte há muitas vezes mudanças nos hábitos alimentares, algumas dessas pessoas passam a comer melhor.

Por fim, há uma explicação fisiológica que explique boa parte dos sucessos. Quando a pessoa passa a ter uma rotina de atividade física regular ela aumenta sua sensibilidade à insulina. Em um processo de certa forma, inverso à resistência, ela precisa de menos insulina, nosso hormônio mais engordativo. É um benefício indireto do exercício. Sua prática aumenta nossa sensibilidade à insulina, fazendo assim cair os níveis gerais dela. Um dos motivos é que os músculos (mais treinados pelo indivíduo) passam ainda a ter mais transportadores de glicose (GLUT4) que são independentes desse hormônio.

É de certa forma difícil ou impossível calcular exatamente a participação de cada fator nos casos de sucesso, mas dá para arriscar dizendo que essa menor produção de insulina explique parte do porquê você vai conhecer gente que tenha perdido peso ao incorporar atividade física em sua rotina, ainda que ela ache ou venha te dizer que não mudou a dieta.

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9 pensamentos sobre “Atividade Física: uma ferramenta ineficiente para perder peso ou combater a obesidade.

  1. Julio Cesar Kujavski disse:

    Sobre maratonistas acharem que podem comer mais, sei disso por experiência própria, pois eu também achava isso.

    Quando treinava e corria só maratonas meu peso era 67 kg e tinha até barriguinha.

    Agora que treino bem menos e só corro provas de 5 km meu peso está em 61 kg.

    O “segredo” ? Comer menos. (sobre a barriguinha, fazer abdominais tb ajuda.. rsrs..)

    E é bem como vc escreveu, o maratonista faz um treino longo no final de semana e por isso acha que não precisa fazer mais nenhuma atividade física, pode ficar no sofá o resto do sábado e o domingo inteiro, e, por ter sido muito guerreiro fazendo um treino de 30 km acha que tem o direito de comer tudo o que aparecer pela frente -> Eu era assim.

    Um corredor mais recreativo ou alguém que faz treinos intensos mas com uma baixa quilometragem termina seu treino e ainda tem disposição para fazer várias coisas. Tem dias que treino corrida na hora do almoço e faço natação à noite. Além das atividades corriqueiras em casa e no trabalho. E se tiver consciência do que comer, não vai ganhar peso e pode até perder peso, como foi o meu caso.

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  2. Sergio disse:

    Texto de muita qualidade, como é usual por aqui. Eu consegui emagrecer depois que comecei a correr, há 8 anos, mas é claro que minha dieta mudou. Passei de 76kg a 65kg logo no 1º ano. Depois meu peso passou a oscilar entre 66kg e 68kg e nunca mais consegui chegar nos 65kg. O mecanismo da auto compensação funciona o tempo todo, bem do jeito que você mencionou. Quando treino mais, acabo comendo mais. Hoje a corrida tem efeito zero no meu peso, embora treine para provas longas.

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  3. O que vejo bastante e alguns amigos falam é que usam a corrida (ou o exercício que for) não para perder, mas para não ganhar peso. Faz sentido isso?
    Tipo. Acordou sábado com 75 kg, acende o sinal de alerta, e corre mais nos próximos dias até voltar ao 73 kg.
    Dizem eles que não mudam a alimentação nesse período, mas eu não acredito muito.
    Até porque o que a gente mais perde correndo são líquidos, não é? E logo depois do treino é fácil, fácil de repor.

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  4. […] e experiência, recorreu a um estudo feito por SEIS DIAS e outro feito com VEGANOS. Veja bem, fiz questão de listar estudos controlados, longos, feito com dezenas de milhares de pessoas, de diferentes países e culturas. Guilherme ou […]

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  5. Oliveira disse:

    Muito interessante! Estava lendo o livro da nutricionista Dra. Sophie Deran e ela aborda muito a questão que levantou aqui: engordar e emagrecer dependem de como seus genes “conversam” com os alimentos ingeridos. É uma nutricionista que tem muito bom senso! Vale a pena a leitura.

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  6. Lucas Perrone disse:

    Ja é sabido que atividade fisica não é um bom metodo para controle
    de peso. Sou adepto a LCHF desde meados de set/2014 e tenho feito o
    “jejum intermitente”, ou somente jejum desde final de out/2016. Faco
    atividade fisica – corrida – em jejum ha algum tempo. Antes eu fazia
    minha corrida e depois tomava o cafe da manha. Hoje eu somente tomo
    meu cha ou agua, completando mais ou menos 16h de jejum em e média..
    Agora vem minha duvida: Quando estamos em jejum, utilizamos a lipolise
    como principal fonte de energia, principalmente em pessoas que seguem
    a LCHF. Quando estamos fazendo atividade fisica em jejum, precisamos
    mais dessa energia vinda da gordura. Nesse caso a atividade fisica não
    potencializa a perda de peso? Existe algum estudo comparando LCHF com
    LCHF + atividade fisica, ou ainda, LCHF+Jejum com LCHF+jejum+atividade
    física?

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    • Danilo Balu disse:

      Vc que jogar mais uma variável nesse caos?? rsrsrs Não acho que jejum+”atividade física” seja maior que jejum+”atividade física em jejum”…. mas é chute puro. A questão parece estar mais ligada à resistência à insulina (RI) do que ao LCHF. E para reduzir a RI, vc cortar carboidrato ajuda, mas é mais importante reduzir os processados e industrializados.

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