Leituras de 5a Feira

Quando eu era criança, morava em uma rua “fechada”, era aberta a todos, mas era uma espécie de vila na zona Sul de SP, com uma única entrada e saída de carros. Todos andávamos calçados, mas sempre que havia futebol ou corríamos rápido em jogos, íamos descalços. Jogar de tênis contra alguém de chinelo é injusto na dividida, correr rápido é ineficiente. Quando eu ia para a cidade da minha avó (Tietê/SP) ainda moleque, todo todo jogo era descalço. Havia criança bem pobre que não tinha nem chinelo, então descalço era mais justo, era uma regra. Os pés deles pareciam mais resistentes que os do Wolverine, não havia como “competir” com eles. Enfim, escrevi tudo isso porque sempre fico inconformado com estudos curtos que analisam minimalismo e “barefoot” quando você faz uma intervenção em alguém que passou décadas sedentário E com centímetros de drop e espessa entressola dura formando seu padrão de caminhada e corrida. É como arrancar aquelas argolas do pescoço das mulheres das tribos africanas Nbedele e Padaung e dizer que as argolas fazem bem ao humano. Elas cresceram e se adaptaram àquilo, assim como aquele cara de meia idade que decidiu no ano novo correr a Maratona de Nova Iorque após décadas andando de sapato com muito drop e 12mm de borracha. Meu sobrinho, que bate na minha cintura, tem mais entressola em seu minúsculo tênis do que eu em meus tênis. Faz sentido? Não, não faz… é um crime pais fazerem isso! Um CRIME! Criança tem que andar descalça, adulto ao menos em casa tem que andar descalço! Um texto ótimo, excelente, explica como nosso delírio coletivo quer superproteger (adultos e crianças!) e acaba por fazer um mal imensurável. Usando uma analogia que sempre gosto de citar: você acha que seria melhor usarmos SEMPRE luvas grossas do tipo de estivador para nosso dia a dia? Faz algum sentido?

Tempinho atrás escrevi sobre treinamento de força e musculação aqui no Recorrido. Estamos nas trevas quando fazemos o tradicional em academias. O atleta mais completo do mundo e recordista mundial do decatlo, Ashton Eaton publicou em seu site seu treinamento de força. INCRÍVEL! Veja quão poucos aparelhos ele usa! UM! No meu texto, aliás, está lá minha aversão à cadeira extensora (mesa romana) e adivinha qual é esse único aparelho… (risos)

A corrida é linda também por seu caráter democrático (você não precisa de NADA especial para correr, além de roupa confortável e um calçado qualquer que não seja um corturno) e por não precisar de horário, equipe, local ou muita instrução. Ela é linda também por mexer com a vida de tanta gente. Na VICE uma reportagem sobre uma equipe de pizzaiolos, gente humilde, que encontrou na corrida sua forma de execício e lazer. Demais!

Em Estocolmo a Reebok premiava as pessoas com seu novo modelo ZPump 2.0 caso ela ultrapassasse a velocidade de 17km/h (~3’30”/km) em um teste com radar. Divertido!

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8 pensamentos sobre “Leituras de 5a Feira

  1. Renata Mendes disse:

    quenianos avassaladores provam tudo isso….

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  2. Geralmente, a pessoa começa a correr e ninguém diz como faz. Como correr é simples, já empurram um nimbus da vida e pronto. Aí a pessoa vai pisar com o calcanhar e quando aprende mais e resolve mudar parece que nunca correu na vida. O mais difícil de tudo é mudar a forma de correr. Sofrem os tendões, as panturrilhas, mas depois fica automático. Comigo foi assim. Só agora parece que as coisas estão voltando ao normal.

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  3. ciro disse:

    Pior do que calçados para crianças são os pais que colocam crianças em andadores…

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  4. Julio Cesar Kujavski disse:

    Conga era minimalista. E a gente nem sabia,

    E pra jogar bola havia dois tipos de jogos: Os que era pra jogar descalço, e os que a gente jogava de Kichute.

    À vezes alguém descalço insistia em jogar no jogo onde quase todo mundo usava Kichute.

    Evou te contar, tinha uns descalços que ganhavam divididas contra meninos de kichute.

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  5. Esse debate é complicado… Eu passei por todas as tendências, comecei a correr usando aquelas tranqueiras de estabilidade e controle de movimento. Depois experimentei o minimalismo, inclusive tenho um par de huaraches (uso até hoje nas poucas vezes que corro na areia) mas não deu muito certo, até 5k ia bem, depois disso surgiam dores que não passavam de jeito nenhum, por mais gradualmente que eu aumentasse o volume.

    Então passei a usar modelos simples, “para pisada neutra” com amortecimento mas não demais (prorunner ao invés de creation p. ex) e “achei o meu lugar” por assim dizer. muito melhor do que aquelas jamantas pesadas que usei no início.

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  6. Luciano Russo disse:

    Só discordo da questão de correr de coturno. Eu achava um calçado extremamente confortável. Tanto que continuei usando o meu por muitos anos depois de sair do quartel.

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  7. adrianapiza disse:

    Outro dia vi uma senhora reclamando que teria que operar o pé para poder colocar sapatos. Ela tinha o 2o dedo do pé totalmente encavalado, sobreposto ao dedão, na horizontal! Fiquei impressionada e imediatamente pensei a que ponto chegamos! Se usássemos mais os pés, andássemos mais descalços, com certeza isso nunca ocorreria! Hoje tratamos os dedos do pé como apêndices que não servem pra nada, se tentamos mexer cada um separadamente, não sabemos nem como começar, não conseguimos encontrar e acionar o músculo correto.

    Outro dia depois de correr, tirei o tênis e voltei para casa totalmente descalça, (uns 500m) na rua, foi uma sensação estranhíssima, mas muito boa, perceber que o pé funciona!

    Na corrida, sou a favor de minimalismo e pé no chão…o problema é que não adianta, não dá certo fazer isso depois de 20, 30 40 anos de pé dentro de sapato duro! Aí o trabalho é muuuito maior, tem que ter muito cuidado, ir muito lentamente para tentar fazer funcionar um pé atrofiado. Chego a duvidar se isso é possível… Nas crianças ainda dá tempo!

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  8. carlosfeoli disse:

    Danilo, gostaria de ouvir tua opinião sobre recuperação pós cirurgia de reconstrução de ligamento cruzado anterior.
    Até nos fóruns de maromba visando hipertrofia, os exercícios compostos são preferidos aos isoladores.
    8 meses após a cirurgia ainda sem a flexão completa da perna operada, mas já com a amplitude funcional 120º, já liberado para correr, fazer musculação e até lutar jiu jitsu (onde aconteceu a lesão). Nesse caso genérico, o que tu acha da cadeira ou mesa flexora como ferramenta para recuperar toda a amplitude?

    Valeu
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