De Tim Noakes, livro, dinheiro, taxistas diplomados e assimetria.

O meu livro O Nutricionista Clandestino é resultado de anos de leituras organizadas para que o leitor (um leigo ou especialista na área) pudesse encontrar em português um lado JAMAIS estudado ou ensinado nas faculdades de Nutrição ou Saúde do país. A escrita dele em si foi trabalhosa, o retorno não poderia até aqui ter sido melhor. Em poucas horas ele pagou sua publicação e em menos de 48 horas ele ultrapassou uma meta que era necessária para uma impressão independente. Eu não poderia estar mais contente com a receptividade. E sou muito muito grato a vocês por tudo isso!

Além das mensagens positivas, recebi uma menção negativa em seu teor, mas que me dá convicção de que estou no caminho certo. Uma das coisas que mais acontece quando comentam meu post original sobre minha recomendação de NÃO irmos ao nutricionista em caso de saúde, não é sobre nutrição, mas sobre dinheiro, sempre resvalando no assunto mensalidade (de faculdade), consulta, anuidades. Será que tem que ser sempre assim?

Tim Noakes sendo julgado por questionar diretrizes nutricionais mal feitas

Tim Noakes sendo julgado por questionar diretrizes nutricionais mal feitas

Dia desses a Dra Sonia Tucunduva, professora da FSP-USP, postou em sua rede social falando sobre eu não ser nutricionista nem filiado ao CRN (ou qualquer outra dessas associações de classe de Nutrição para as quais não dou bola). Não sou mesmo, não sei o porquê insistem. Por escolha, não fiz questão de ser. Ser nutricionista, aliás, para mim é a parte mais fácil nessa história toda. Fiz o curso todo e não fiz os estágios porque não exerço, nem tenho a menor vontade de exercer a profissão. Ou acha que muito frequentemente não declino de ofertas??

Ficar falando em títulos e boa vontade do profissional, dá a entender que por si só, como por mágica, o mundo seria melhor e as coisas funcionariam por fé. Veja bem, o que incomoda à Dra Tucunduva não foi nada do que eu disse do livro, é o fato de eu não ser filiado ao conselho do qual ela é diretora. Eu tive aulas com ela, sei como funciona o método dela. Por exemplo, ela é autora de uma Pirâmide Alimentar brasileira. A pirâmide original é uma construção puramente política, sem ciência. A doutora fez uma adaptação nacional de algo que é um rascunho. Você apostaria que funciona? Se alguém faz uma gambiarra em algo tosco, você chama isso de projeto/ciência? Vamos adiante.

A professora em seu curso quando eu era aluno usava um livro de sua autoria. Na minha opinião não há nada mais picareta do que isso. Isso, aliás, ainda flutua entre a canalhice e a soberba passando pelo egocentrismo. Sendo ela diretoria do CRN, enfim voltamos ao dinheiro.

O que incomoda a Dra Tucunduva não é se estou certo ou errado, não é o que vai dentro do livro, mas o fato de eu não ter pago o seu pedágio. O discurso dela custa bem barato, acreditem. Se me incomodasse com o zunido dela, eu pagaria o seu silêncio. Eu já sei que ele custa entre o preço de um livro seu e a anuidade do CRN. Ela funciona como um taxista; você quer ir ao Santos Dumont, você paga um pouco a mais e explica a ele que quer ir pela orla da Zona Sul. A doutora parece sempre ser mais fiel ao bolso do que às ideias da Nutrição.

22906b1É um pouco decepcionante que sempre que algum(a) nutricionista venha me procurar, entre quase sempre apenas nessa questão do dinheiro. O que incomoda ao CRN (ou ao CFN) é apenas, e tão somente, pagar o naco deles na história. Como da diretoria da Tucunduva, ela quer o pedaço dela no bolo. Há em TODAS as ciências da Saúde (e obviamente também na Nutrição), uma falta de sincronia, é uma questão de assimetria entre o desejo do cliente (saúde) e o do profissional (financeiro). Outro nutricionista que foi meu professor, o Reinaldo Bassit, o Tubarão, disse para mim “que é do mercado” uma prática que ele adora, que é a de você prescrever, vender e ter parceria comercial com suplementos esportivos. Em um claro e abominável conflito de interesse, quanto mais suplementos vendidos, maior a renda dele. Nisso o CRN não enxerga problemas. Por quê? Porque ambos já pagam o pedágio-cala-a-boca. Como uma empresa, a meta do CRN é apenas e TÃO SOMENTE vender mais. É disso que empresas vivem, não da saúde alheia. Qual o maior produto do CRN? Anuidades. Simples assim, preocupante assim.

Pagar uma anuidade para ambos calarem a boca seria divertido e mostraria a todos o (baixo) preço deles. Mas é uma questão ética de minha parte não fazer isso, jamais.

E aí chegamos a Tim Noakes. Após pregar o que sempre pregou (o que se ensina atualmente nas faculdades), o renomadíssimo pesquisador sul-africano mudou radicalmente sua abordagem ao revisar a falsa e frágil ciência por trás da Nutrição. E por isso ele está sendo processado. Tenho inúmeras reservas com o discurso demasiadamente apaixonado e impensado que Noakes usa na “oposição”, mas é intrigante a razão pelas quais ele está sendo julgado: colocar a vida de crianças em risco.

O desenrolar da história muito provavelmente absolverá o pesquisador. Mas é um dilema. O CRN (e todas essas entidades) apregoa a si e a SEUS clientes o direito exclusivo de cuidar de NOSSA saúde, sem JAMAIS ter contrapartida nem correr risco (skin in the game).

E no meu livro eu tento explicar justamente como é frágil a fundamentação de muitas dessas diretrizes. Tomemos 2 exemplos. A gordura saturada, condenada décadas atrás (anos 60 e 70) ela vem se provando NÃO relacionada com males no coração. A gordura trans, apontada como alternativa, hoje está “proibida”. Durante décadas consumimos demasiadamente alternativas nocivas (trans, óleos vegetais e carboidrato) sob a orientação e recomendação profissional.

Como qualquer empresa, o CRN vive apenas de vender e teme os riscos ao faturamento, não à sua saúde.

Como qualquer empresa, o CRN vive apenas de vender e teme os riscos ao faturamento, não à sua saúde.

Apesar da enorme boa-vontade e boa-fé que NUNCA neguei neles todos, o CRN, minha ex-professora e os que gritam por reserva de mercado, ao contrário do Tim Noakes, NÃO pagarão pelos erros técnicos. Eles NÃO têm a pele em jogo (skin in the game), algo fundamental. Eles não querem riscos (têm medo), eles não querem saúde (última opção), eles querem é reserva (amam). É uma aposta do tipo ganha-ganha: eu faço barbeiragem por décadas e ganho meus trocados sem NENHUM risco. E quem de forma científica tenta apontar erros, não pagando o pedágio, pode ter que dar explicações.

O discurso ad hominem facilmente patrocinável do CRN e da Dra Tucunduva só me reforça de um ponto: a enorme lealdade desses com o bolso é um dos maiores desafios modernos das ciências da Saúde.

*e como eu só combato minha procrastinação na base da pressão, semana que vem eu falo o porquê você NÃO deve ir ao nutricionista em caso de Saúde. E o porquê faz MUITO mal ler colunas de Nutrição em revistas/sites de corrida. Ou ainda o porquê você não deveria nem ler livros sobre Nutrição escritos por nutricionistas…

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8 pensamentos sobre “De Tim Noakes, livro, dinheiro, taxistas diplomados e assimetria.

  1. Pedro Ayres disse:

    Balu: foragido e perigoso:

    “O CRN-3 adverte que Sr. Danilo Balu não é nutricionista e não está inscrito
    no CRN-3. Reiteramos que foram tomadas medidas judiciais em relação à
    publicação em 02.03.2015 em seu blog assim como a sua autodeclaração
    como nutricionista ser inverídica. O CRN-3 não conseguiu até o presente
    momento finalizar ação civil pública e inquérito policial devido a endereço
    incerto para citação judicial.”

    http://crn3.org.br/wp-content/uploads/2015/11/Comunicado_Danilo_Balu_f.pdf

    Tem essa pérola também:

    É bem covarde jogar para a torcida, fazer um ataque ad hominem disfarçado, tentando desqualificar o autor porque o assunto foi publicado num blog, confundindo meio e mensagem. E se fosse colunista de jornal, daí teria valor? Mais ainda: a coisa toda vai ficar restrita ao post ou você vai ser processado também pelo livro? Desse jeito fica difícil crer na boa-fé de alguns… Tem taxista fazendo o caminho mais longo para cobrar mais caro, sem que o cliente saiba.

    Não vi até agora, nessa história, a contestação das IDEIAS levantadas.

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  2. Erik Neves disse:

    Ancel Keys nunca passou perto de uma faculdade de nutrição mas os nutricionistas e médicos não cansam de repetir suas burradas:

    «At the University of California, Berkeley, Keys initially studied chemistry, but was dissatisfied and took some time off to work as an oiler aboard the S.S. President Wilson (1st), which traveled to China. He then returned to Berkeley, switched majors, and graduated with a B.A. in economics and political science (1925) and M.S. in zoology (1928). For a brief time, he took up a job as a management trainee at Woolworth’s, but returned to his studies at Scripps Institution of Oceanography in La Jolla on a fellowship. In 1930 he received his Ph.D. in oceanography and biology from UC Berkeley. He was then awarded a National Research Council fellowship that took him to Copenhagen, Denmark to study under August Krogh at the Zoophysiological Laboratory for two years. During his studies with Krogh, he studied fish physiology and contributed numerous papers on the subject. Once his fellowship ended, he went to Cambridge but took some time off to teach at Harvard University, after which he returned to Cambridge and earned a second Ph.D. in physiology (1936).»

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  3. alvarotimbo disse:

    Meus parabéns pelo livro Balu, não tive o prazer de ler ainda pois não sou muito adepto da leitura digital(seu blog como exceção), mas pelo visto deve ser muito bom pelo fato de ter tanta gente importante se importando com o que diz. rsrsrsrsr Sou um mero leitor diário de seu blog, mas tem minha total admiração!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ralph disse:

    Parabéns Balu. Muito feliz pelo seu texto. De uma forma, também me sinto assim. Apesar da minha formação ser na área da saúde, não exerço a profissão e não faço idéia da onde fica o Conselho. E sou sempre questionado por isso. Principalmente em consultas médicas quando ouço absurdos e ao levantar uma dúvida, de maneira respeitosa, claro, sou atacado com um “Mas você é médico ?”.

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  5. Ciro Violin disse:

    Não sei se ja te mandei isso. Acho que ja

    http://www.trisportmag.com.br/ser-muito-magro-e-determinante-no-triathlon/

    Esse tecnico tem 50 campeões mundiais

    Minha pergunta, se vc puder responder…. é:

    Ele fala em gordura, principalmente a saturada
    Nosso corpo evoluiu pra metabolizar gordura, ou seja, a gordura realmente é melhor, porque a “maquina” foi construída pra funcionar com a gordura, apesar de funcionar tb com proteina e carbo. Estou pensando certo, né?

    Mas a questão é, alimentação em provas de endurance, onde se fica na velocidade de cruzeiro a gordura que ja esta estocada vai bem…. mas e quando se precisa aplicar força, nessa hora precisa de carbo, certo?

    Se formos ficar em velocidade de cruzeiro por toda a prova, ha necessidade de se consumir carbo ?

    Eu poderia somente consumir um gel de carbo, quando eu souber que terei que aplicar força , mais do que a velocidade de cruzeiro, como em um ataque para buscar uma posição ?

    Não sei se estou conseguindo ser claro

    Obrigado e me desculpa pela encheção

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