O presidente da Soc. Bras. de Diabetes é um perigo!

Dias atrás duas notícias ganharam destaque no que diz respeito à diabetes. A primeira foi que uma americana de 3 anos de idade foi a mais jovem criança a ser diagnosticada com diabetes do tipo 2, aquela do tipo ”adquirida com o tempo”. No mesmo dia o UOL publicou outro dado alarmante: a doença já mata mais do que a malária, tuberculose e HIV somados. Em maior ou menor grau, podemos de certa forma nos prevenir dessas doenças. Mais do que isso, se não como curá-las completamente (no caso da AIDS), sabemos como tratar as 3 enfermidades. E no caso da diabetes?

Bom, o UOL foi atrás do endocrinologista Walter Minicucci, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. E o que descobrimos? Basicamente, descobrimos que a depender do doutor, estamos mal muito mal! O Sr. Minicucci é um perigo à sociedade. Não brinco, falo sério, MUITO sério! Palavras e diabetes matam! E as palavras dele, são um perigo!

Veja a seguinte frase dele: “É preciso valorizar vegetais e frutas frescas, reduzir a gordura, comer menos açúcar e fazer alguma atividade física ao menos três vezes na semana por 40 minutos“.

IMG_20150925_093321Na pressa, poderíamos dizer que o Sr. Minicucci quando fala de uma doença tão grave, tem a profundidade de um biscoito da sorte chinês. Até aí tudo bem, pois não é o tipo de reportagem que abre espaço a coisas muito profundas. O problema é que o titular do cargo mais alto da SBD demonstra não entender nem de lógica, nem de fisiologia, nem do básico da doença, além, é claro, de ignorar qualquer atualização recente daquela que deveria ser sua área de expertise.

Vamos lá… resumidamente e simplificando, nos indivíduos com diabetes do tipo II o corpo produz uma insulina que passa a gradativamente não mais fazer efeito porque o corpo adquiriu resistência a ela (resistência à insulina). Na do tipo I, o corpo simplesmente não a produz. Imagine esta situação como a de quem mora vizinho a um rio poluído que cheira muito mal e passa em pouco tempo a não sentir mais o forte odor, ou então pense naquela pessoa fumante que não sente o seu cheiro da fumaça do cigarro ou ainda aquele indivíduo que não percebe que sempre exagera no mesmo perfume porque seu corpo passou a aceitar aquilo como padrão. Com a insulina de alguém com diabetes do tipo II é algo parecido. Ou seja, uma situação atípica passa a ser o comum, o corpo não mais “escuta” os sinais da insulina no organismo.

Como em outras doenças congênitas, na diabetes (I ou II), o corpo não sabe (ou passa a não ser mais capaz) metabolizar alguns elementos. Um indivíduo que seja intolerante à lactose busca pela alimentação eliminar a lactose de suas refeições. Já o fenilcetonúrico, para tratar-se da sua fenilcetonúria terá que buscar, também pela dieta, eliminar o aminoácido fenilalanina, ao qual é intolerante. Já o celíaco (severo ou não), em sua alimentação, elimina o glúten porque seu corpo tem graves problemas para metabolizá-lo. Converse com qualquer médico ou nutricionista, e você verá que para essas 3 doenças terão esses indivíduos esse tratamento de eliminar um nutriente em particular da dieta como tratamento convencional e amplamente aceito e utilizado.

A diabetes (seja a do tipo I ou do tipo II), tal como essas doenças que citei, se caracteriza pela incapacidade (total ou parcial) do corpo conseguir metabolizar a glicose, o que acarreta um acúmulo dela na corrente sanguínea (hiperglicemia). Ou seja, o quadro de diabetes é a incapacidade do pâncreas em produzir insulina em quantidade adequada. E nos casos de grande resistência à insulina, o corpo simplesmente não reconhece esse hormônio. Uma alternativa natural e simples seria ou obter energia por outras fontes, ou ainda tirar o estresse fisiológico de um pâncreas combalido. Olhando desse ângulo, você espera que os especialistas fossem restringir ao máximo aquele tipo de macronutriente diretamente relacionado ao hormônio, ou seja, o carboidrato. Seria o tratamento seguindo a lógica da intolerância à lactose, fenilcetonúria ou celíase.

E qual a recomendação do presidente da SBD no portal de maior visitação do país? Valorizar vegetais e frutas frescas (fontes de carboidrato) e reduzir o consumo de gordura. Gênio, não? O Sr. presidente parece e dá evidências de não saber sequer a razão do ganho de peso em um indivíduo, ele confunde causa com consequência, ele raciocina por aproximação, se está gordo, comeu gordura, se está verde, comeu muito brócolis.

Repito: ter alguém tão desatualizado na presidência da SBD é sintomático! Não é coincidência tantas mortes ou gente tão jovem ficando doente, afinal, o PRESIDENTE não sabe do que fala!

IMG_20150926_092852O Sr. Presidente atropela a lógica porque quando um indivíduo passa a comer menos gordura, qualquer que seja ela, ele necessariamente substitui isso por outro alimento que, sabemos, será entre outros, o carboidrato, justamente o macronutriente que o organismo do diabético pior sabe lidar!! O recado da SBEM é mais ou menos como: sabemos que você não consegue digerir a glicose, mas recomendamos que você deveria comê-la ainda mais, mesmo assim. Isso é quase uma tentativa de homicídio culposo! Falo sério! Isso porque para ele, um corpo que não sabe ou não consegue lidar com carboidratos não tem que reduzir a glicose, tem que aumentar o seu consumo. É meio como tratar uma doença na base da marretada. Acho que assim eles esperam que esse diabético “teimoso” melhore!

Para mim o que ele e a SBD fazem é algo IRRESPONSÁVEL!

Não é mais correto afirmar que faltam evidências sobre a efetividade ou segurança da dieta restringindo carboidratos em diabéticos, na exata contramão do que prega o Sr. Pesidente. Em um estudo feito com essa população8, essa restrição reduziu a necessidade de medicação e reduziu o risco cardíaco mais do que a dieta restringindo gordura. Um outro estudo chegou ainda à conclusão que a restrição na dieta é segura e mais eficiente no controle da glicemia em obesos diabéticos9 enquanto um outro estudo concluiu que restringir carboidratos é mais eficiente ainda em indivíduos10 em estado severo de diabetes. Já em outros dois estudos com pacientes diabéticos e com síndrome metabólica11, 12, eles perderam mais peso com 6 meses de dieta restrita em carboidratos do que em uma dieta restrita em calorias e gordura, com também melhora da sensibilidade à insulina e dos níveis de triglicerídeos. Um outro estudo restringindo carboidratos foi mais eficiente na redução do risco cardíaco13, um enorme temor dos médicos que justificam o corte de gorduras demonstrando outra vantagem desse tipo de abordagem e dieta.

Além disso, há evidências de que restringir o carboidrato se mostra uma estratégia mais eficiente no controle glicêmico e na perda de peso também dos diabéticos14, sendo que esta perda de gordura pode ser a do tipo visceral15, aquela mais perigosa à saúde. Confirmações não faltam, outro estudo mais longo (2 anos) chegou ao mesmo resultado de maior redução do risco cardíaco ao restringir carboidratos16 na dieta, não a gordura, enquanto outro também de maior duração encontrou melhor controle glicêmico17. Não é só que restringindo gordura se aumenta o risco cardíaco ou é menos efetivo no controle do peso, mas também pior no próprio controle da hiperglicemia18 ou mesmo no combate da resistência à insulina, como mostrou ainda outro estudo19.

Há ainda evidência de redução de apetite entre os diabéticos20 e também redução positiva dos marcadores inflamatórios21 e outros benefícios diversos22. Ou seja, nenhuma intervenção na dieta parece ser mais eficiente seja no controle da glicemia23, 24, perda de peso ou redução do risco cardíaco em obesos e ou diabéticos do que a restrição de um macronutriente em especial, o carboidrato. Como já dissemos, se este é o macronutriente que o organismo do diabético não sabe metabolizar eficientemente e se a outra opção é segura, nada explicaria com o suporte de evidências a abordagem atual que não apenas é uma repetição de teorias que não se sustentam frente as novas descobertas e novos estudos.

Está no delírio coletivo dos citados que é uma boa estratégia alimentar oferecer mais “carboidratos” a pessoas diabéticas, indivíduos que não metabolizam bem a glicose. Diante de tantos absurdos, não seria então a hora talvez de mudar o paradigma? Adotar uma dieta restringindo os carboidratos (e não gordura) seria assim uma forma de tratar os casos de diabéticos como apontou muito bem uma longa revisão publicada em 2011, mas ignorada por eles25. Ou ainda uma importantíssima revisão crítica de 201426 apontando a dieta de restrição de carboidrato como primeira alternativa em função de seus melhores resultados em 15 estudos.

Vou ser franco como poucas vezes: a lógica nos portais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, do Diabetes Brasil e do Sociedade Brasileira de Diabetes é de um “raciossímio” vergonhoso para onde correr se quem deveria saber sobre a doença tem essa lógica TÃO torta??

Diabetes não é muito a minha praia, talvez valha ver aqui o porquê a restrição de carboidratos deveria ser a estratégia inicial do controle do diabetes e o eu tem a dizer o mais importante centro de tratamento de diabetes do mundo sobre a lógica torta do presidente.

Essa gente é mesmo um perigo!

*sim, escrevei à SBD antes de escrever esse texto, mas eles devem achar que a fala do presidente está de acordo com a “lóJica” deles...

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16 pensamentos sobre “O presidente da Soc. Bras. de Diabetes é um perigo!

  1. Muito boa a referência 26.

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  2. Prepare-se para as notas oficiais de defesa do dito Dr e da enxurrada de cumpanheiros raivosos, ou seja, vai apanhar MUITO!!!

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  3. Daniel Prado disse:

    Danilo,
    Onde encontro mais informações sobre as dietas low carb?

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  4. Rafael disse:

    Estou lendo o livro “50 maratona em 50 dias”, do Dean Karnazes.
    e me surpreendi que ele segue a dieta paleolítica, que ele chama de neandertal.

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  5. Julio Cesar Kujavski disse:

    Considerando que a a maioria dos diabéticos tipo 2 são obesos, comem todo tipo de comida industrializada e são sedentários, a frase dita pelo presidente da SBD não parece ser assim tão blasfêmica, pois, se estes indivíduos, passaren a ter uma dieta mais equilibrada, introduzirerm vegetais e frutas na dieta (dimnuindo assim os industrializados), diminuindo o açúcar e fazendo um pouquinho de atividade física já vai ajudar bastante.

    Ou ele deveria falar na entrevista para todos os diabéticos pararem de comer pão, macarrão, batatas, frutas e passassem a comer bastante bacon ovos e carne ?

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    • Danilo Balu disse:

      Vc acha certo diabético comer “pão, macarrão e batatas”?

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      • Julio Cesar Kujavski disse:

        Balu, aproveitando o ensejo, vc vai gostar disso, é uma nutricionista dando dicas de alimentação para quem treina pra maratona, está no Webrun:

        ” Segundo Vanessa Pimentel, nutricionista clínica e esportiva, a alimentação diária acaba influenciando diretamente na performance esportiva. Além disso, algumas dicas são fundamentais para o atleta consumir os alimentos adequados antes, durante e depois da competição. “O corredor precisa alterar a dieta dele, restringindo certos alimentos e preferenciando outros. Isso evita a formação de gases e bolo fecal em demasia e melhora o estoque de energia no dia da prova”, afirma a nutricionista.

        Alguns alimentos recomendados:
        Raízes e tubérculos cozidos: batata, mandioca, mandioquinha e inhame.
        Alimentos ricos em carboidratos e pobres em fibras: arroz branco, macarrão com farinha branca, pão de forma tradicional, bolachas e biscoitos refinados.
        Frutas sem casca, semente ou bagaço, preferencialmente cozidas ou assadas. “.

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      • Danilo Balu disse:

        Eu já disse: revista disse A, faça B, é mais seguro.

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      • veja o último post do blog “vigilante da causa magra”. Pior: publicado no Estadão online. Alimentos para ajudar a emagrecer: pipoca e chocolate. Parece piada…mas está lá.

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    • Gustavo Bianch disse:

      Concordo com o Júlio. O parecer do médico indica mais a aproximação com uma alimentação mais natural, principalmente ao citar vegetais e frutas. O pronunciamento dele foi raso, simplesmente porque ele não diz qual gordura deve ser evitada. Vc ta vendo pelo em ovo, mermão, relaxa.

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      • Danilo Balu disse:

        Depende o que é “natural”… Outra coisa, basta ir no site da SBD e está lá pra qq um o tipo de recomendação que vai daí para pior. A palavra “natural” é algo que todos gostam de usar pra qq coisa. Passeie pelo site deles e veja a razão que eles dão para ficar doente e/ou obeso…

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      • Marcel Rodrigues disse:

        Concordo com o Balú!
        O ponto é: Se o cara pede para reduzir consumo de gordura, já era. Vai comer carbo!
        Outra coisa, o cara recomenda frutas. Sendo que para diabéticos, a grande maioria das frutas devem ser evitadas.

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  6. […] Dias atrás eu falei como o presidente da SBD, o endocrinologista Walter Minicucci, fala bobagens ao grande público em um sinal claro que ele não sabe ou não entende do que fala. Dessa vez, foi no Estadão que pessoas ligadas à SBD vieram falar atrocidades mostrando que eles não entendem as causas de uma doença gravíssima da qual se apresentam como especialistas! É muito grave! E muito sério! […]

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