Coisas que a Irlanda me ensina sobre corrida.

Quando eu era moleque, a coisa que eu mais gostava era competir fora. Ali você tinha a chance de descobrir in loco o que os caras usavam, como treinavam, como se comportavam, quão bons eram. A internet meio que acabou completamente com a magia. Hoje me debruço mais sobre números (mensuráveis) e a relação das pessoas (imensurável). Se um dá a medida do grau da febre (o mercado), o sintomático fica por conta do comportamento da sociedade.

16 August 2014; Ireland's Sarah Mulligan during the women's marathon. European Athletics Championships 2014 - Day 5. Zurich, Switzerland. Picture credit: Stephen McCarthy / SPORTSFILE

A primeira coisa que você descobre ao vir treinar na Europa (e assim também o é nos EUA) são os equipamentos. A pista que escolhi para treinar fica perto de casa e custa uma anuidade de 130 euros. Repito: anuidade. Neste valor estão incluídos ainda halteres, a orientação técnica e o livre acesso aos treinos. O tartan dela é equiparado ao de qualquer pista sintética brasileira, com a vantagem dos vestiários serem muito melhores e mais higiênicos. Há mais pistas sintéticas em Dublin, uma cidade do tamanho de Piracicaba (SP), do que eu sei existir em todo o Brasil.

A 2ª diferença é a impessoalidade. O serviço de assessoria técnica é algo que só existe no Brasil nos moldes como o conhecemos. Em Buenos Aires já há algo nessa linha brasileira, mas ainda sem o excesso que existe em SP, Rio, BH e outras grandes capitais, que por vezes tratam os alunos como grandes crianças em busca de um psicólogo que lhes dê atenção, num gesto claro de atender à demanda dos que pagam. Os treinos por aqui são mais focados, mais diretos, verticais, sem mimos aos clientes que – olha que engraçado – buscam grupos de corrida porque querem correr sem precisar fazer necessariamente de lá uma espécie de grande e constante HH. Veja bem, acredite, não critico os laços que a corrida possibilita, mas sou sempre meio refratário quando o assunto é “vestir o manto”, ”família assessoria XYZ” e essas analogias de assessorias.

No treino você chega (com pouca antecedência até porque não há a imprevisibilidade do trânsito ou de ficar preso no trabalho), treina e vai embora porque ninguém tem empregada doméstica e o frio não permite ficar deitadão com o corpo molhado de suor. Um pouco menos mimimi, muito mais corrida. É melhor? Aí vai de cada um, eu diria que é diferente, não necessariamente melhor.

_IMG3550cropEra natural que esse tipo de comportamento se refletisse também nas provas. Já participei de outras 2 provas recentemente. Em uma de 5km paguei 20 euros e o kit era bem parecido com as brasileiras. Mas 3 detalhes me chamaram muito a atenção. O primeiro é que não havia medalhas. O segundo é que havia apenas UM posto de água a pelo menos 500m DEPOIS da chegada. O tipo de medida que evita que você se desloque se não estiver realmente com sede, diminuindo custos sem comprometer nada. O terceiro é que eles correm demais. Foi minha pior colocação em muito anos de corrida, justamente em uma prova que tenho certo domínio do meu condicionamento.

Depois fui encarar a Rock n´ Roll Half Marathon daqui, da franquia americana de maior sucesso mundial. Novamente a simplicidade e a objetividade de um povo que sabe fazer negócio como ninguém. Largada minimalista, em ondas, tudo perfeitamente redondo. Se você tiver a oportunidade um dia, CORRA! É demais! Os incentivos pelo trajeto com bandas e placas sinalizadoras são incrivelmente originais. Mas é na largada que você vê a diferença de um povo civilizado.

Não havia na entrada das baias nenhum controle, você ia calmamente para a sua seção indicada no número de peito. Nunca tinha visto nada igual na minha vida. Foi um choque de civilização. Sem empurra-empurra, nada.

Aqui a corrida é um negócio tal qual no Brasil. Nem mais nem menos comercial. Mas com as particularidades da cultura local.

Outra grande diferença do mercado europeu eu conto amanhã!

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20 pensamentos sobre “Coisas que a Irlanda me ensina sobre corrida.

  1. Thiago disse:

    Balu, onde existem pistas de atletismos abertas para o público (pagante) aqui no Rio de Janeiro, eu não sabia que existia esse tipo de serviço e sempre tive a curiosidade de treinar em uma pista de atletismo.

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  2. Alguns comentários de alguém com experiência (relativamente curta: 1 ano) nos Estados Unidos da América, Carolina do Norte:

    – Assessoria praticamente não existe. E não faz falta para mim. Mas, e aí vai um grande mais, alguns corredores tem seus treinadores (que não precisam ser formados em Educação Física, fugindo desta aberração de que acompanhamento de profissional de saúde é essencial para a pessoa se exercitar que vemos por aqui no Brasil).

    – Mas, em vez de assessoria, as lojas de corrida e grupos de corredores organizam cursos “Faça seus primeiros 5K”, “Faça sua primeira meia-maratona”, “Faça uma maratona em 3h30”. São cursos pagos, com instrutores e mimos. Ou seja, não muito diferente do que vemos em assessorias por aqui.

    – Curioso esta de não ter medalhas também na Irlanda. Nos EUA-CN a maioria das provas de que participei não tinha medalha. Apenas as meias e maratonas tinham (e uma ou outra prova mais especial). Até uma prova de 10 milhas em que fui voluntário não tinha ( http://ncroadrunners.org/american-tobacco-trail-10-miler/ ).

    Quanto a não ter medalha, por mim corrida não tinha medalha nem camiseta! Postei aqui
    http://professoradolfo.blogspot.com.br/2015/08/camiseta-de-corrida-e-anti-ecologica.html

    Sobre o comportamento nas baias, foi assim também na RnR Marathon & Half-Marathon de Raleigh em 2014. E olha que foram mais de 10 mil concluintes! E na maioria das provas menores nunca tinha aquele amontoado de gente querendo largar o quanto antes. Era até engraçado. Eu ia lá para a frente (gosto de largar atrás porque sei que sou em média mais lento do que a metade dos corredores) porque ninguém queria ir 🙂

    – Quanto ao “eles correm demais”, os EUA é bem diferente da Irlanda. Nunca me coloquei tão bem em provas quanto lá. Por uma razão inicial muito simples: as provas são bem menores. Mas mesmo nas provas maiores tem muito corredor de Curitba que é mais rápido que o pessoal da Carolina do Norte.

    – Pista tinha muita mesmo lá na Carolina do Norte. A maioria fechada ao público e sem a opção de pagar anuidade. Como eu estava na Universidade Estadual da Carolina (pública) do Norte, eu podia usar a pista de graça (a pista é fechada ao público em geral). Mas não gosto de pista e quase não usei. Mas sei que a pista da Duke University (privada) tem horários abertos ao público, assim como a pista da Universidade da Carolina do Norte – UNC (pública). Na UNC um grupo de corredores costuma marcar treinos coletivos.
    Mas é complicado comparar. Nosso esporte é o futebol, não é o atletismo. Tem um monte de campinho de futebol público e aberto em volta da minha casa em Curitiba, a minutos de distância caminhando. Já a pista mais próxima fica a 30 minutos correndo e é particular.

    Obrigado pelo texto Balu e estou muito curioso quanto ao texto de amanhã!

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  3. Pedro Ayres disse:

    Não haver medalhas para os corredores em posições intermediárias é música para os meus ouvidos. Sério mesmo, acho deprimente praticar um exercício, ser apenas mediano, e ainda querer colecionar medalhas. Uma compensação psicológica questionável, principalmente em se tratando de adultos.

    E não ser mimado, aí já é poesia!

    A assessoria mais perto se instala a uns 8km da minha casa, quando passo correndo por lá me dá um gosto amargo de Disneylândia, com foquinhas amestradas fazendo “drills” e outras coisas que poderiam fazer sem especialistas. Esquisito!

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  4. Daniel disse:

    Melhor texto de todos os tempos, principalmente por eu ser um corredor que esta programando morar na Irlanda (Dublin), ano que vem!!
    Muito ansioso pelo texto de amanhã, por favor, escreva mais sobre corrida/atletistmo na Irlanda. Será de grande ajuda!!
    Obrigado

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  5. A corrida que eu fiz em Londres, campanha da British Heart Foundation, tinha 5 ou 10k.
    Tinha medalha, camiseta e água (em copo descartável enchidos pelos staffs). Inclusive vc podia comprar apenas a camiseta.
    Não tinha o desperdício do chip, muito menos aferição da distância, até porque a corrida foi dentro da London Tower e quem se importava se correu 5km ou 4,875423345km

    Detalhe, tinha horário INICIO (16:00 de uma quarta-feira), não era largada. Sendo assim, não tinha um vencedor, pódio, troféu para categoria… e todos os que corriam eram vencedores pois completaram o desafio que haviam se proposto e colaboraram com a Fundação.

    Já a de Manchester 10k eu me inscrevi mas pedi o dinheiro de volta (sim, lá isto existe, pelo menos nesta corrida) pois não consegui saber com certa antecedência em que onda eu partiria e a primeira era as 07:00 e a última as 11:00. Como reservar hotel e trem sem estas informações….

    Em ambas o valor das inscrições foram bem parecido com as provas nacionais.

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  6. Breno disse:

    Boa, Balu! Sempre interessante compararmos nossa situação com outros países/mercados. Tô no aguardo do texto de amanhã e de outros que abordem o universo dos corredores aí nas Zoropa. Há quase 2 anos estive em Roma, tinha uma baita pista pública, lotada de garotada treinando, pertinho do Coliseu. Inveja branca total! Retornei dos US semana passada, me chamou a atenção o fato da maioria dos corredores treinar na rua mesmo, quase sempre em calçadas. Estive em alguns parques e não vi tanta gente assim, aqui no Brasil geralmente buscamos ambientes mais “controlados”. Acho que isso certamente tem relação com a maior consciência dos motoristas.

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    • Danilo Balu disse:

      MTO interessante esse seu pto sobre buscarmos parques e “locais controlados”! Na Holanda eles acham bizarro vc pegar carro para ir correr no parque… por que não ir a pé? Por que não fazê-lo perto de casa? O parque onde treino não tem mtos corredores… mas eles passam correndo por TODAS as ruas pela cidade!

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      • phrayres disse:

        Justamente essa a minha estranheza com as assessorias: a pessoa vai de carro, treina no cercadinho, e volta pro carro. Sempre me pareceu que o super simples da corrida e se vestir e partir da porta de casa.

        Quanto ao trânsito, posso afirmar de camarote que é MUITO mais tranquilo correr do que pedalar dividindo o espaço com carros. Correndo, parece que sou reconhecido (e muitas vezes respeitado) como alguém treinando, em busca de saúde, etc. De bicicleta na maioria das vezes sou apenas um estorvo na via.

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  7. Andre Berlesi disse:

    Muito bom!!!: “Mas é na largada que você vê a diferença de um povo civilizado.”… Me vi em meio às nossas largadas, aquela selvageria, e fiquei pensando na utopia de um dia termos algo parecido por aqui.

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  8. Enio Augusto disse:

    Que diferença! Aqui no Brasil tem gente que é capaz de processar a organização se não ganhar medalha, aquele pedaço de metal que vai enferrujar com o tempo.

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  9. Julio Cesar Kujavski disse:

    Balu, já temos várias corridas (pelo menos aqui no sul) onde a gente pode escolher a inscrição com kit e sem kit.
    Sem kit dá direito somente ao numeral e chip e usar a estrutura no evento.
    Com kit vem uma camiseta, boné, sacolinha, talvez umas barrinhas de cereal…

    Medalha ainda tem pra todo mundo na grande maioria das provas, mas existem provas
    bem pequenas onde as medalhas são só para os primeiros colocados nas faixas etárias. Na corrida do Centro Histórico de SP dias atrás eu não quis pegar a medalha e os stafs ficaram me olhando sem entender nada.

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  10. Rafael disse:

    Sou a favor da medalha de finisher provas,
    é uma lembrança, acho legal

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  11. Lia Campos disse:

    Sair correndo da porta de casa…
    Era assim que eu costumava fazer há alguns anos na minha cidade.
    Mas de uns tempos pra cá a violência só tem aumentado e sair de manhã muito cedo, por ruas desertas, sozinha, correndo, não é lá uma atitude muito inteligente.
    E não exagero. Em pleno calçadão da Beira Mar, local bastante movimentado, virou moda roubo de corredores. De relógios a alianças.
    Brasil é realmente muuuuito diferente da Irlanda…..

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  12. adrianapiza disse:

    Participei nos últimos anos de 2 provas no exterior que me chamaram muito a atenção exatamente pelo que você descreveu. A simplicidade foi o que mais me impressionou, já havia me acostumado com os exageros todos daqui…Uma foi a Maratona de Auckland na Nova Zelândia em 2012 (onde corri a meia) e a outra foi os 10k em Reykjavic em julho passado. Os 10k , para se inscrever, tinha que mandar um email com os dados, só. E era no dia da entrega do kit (apenas número e chip) que era feito o pagamento! O pórtico com o cronômetro para poder ter mais espaço na largada só foi colocado depois, na chegada, e era extremamente simples, 2 postes com um cronômetro. Bom e por aí vai, mas tinha sim medalha, entregue por algumas pessoas que ficavam ali após a largada, numa área pública, qualquer um poderia pegar, mas claro, só os corredores pegavam. Quem acompanhava os primeiros colocados era uma bicicleta e não moto! E olha que está entre as corridas mais populares da cidade ( 400 participantes…lembrando que a população do país é de 320 mil, da cidade 120 mil)! Na Nova Zelândia, a feira da maratona só entregava o kit, não vendia nada, apenas roupas de anos anteriores encalhadas… medalha apenas para os da maratona, na meia não tinha.Após a chegada chegava, você desamarrava o chip, que não era descartável e colocava em baldes espalhados ali. Depois ia num gramadão procurar suas coisas, era o guarda volumes. nem precisa comentar sobre a largada…

    Quanto a uso de pistas e treinos, me lembrei da época que o Mauricio morou em Boston e treinava na pista com um grupo, o (CRC Cambridge Running Club). Eles usavam a pista do MIT (e no inverno a pista indoors), e não precisava ser aluno do MIT para estar no grupo, havia uma taxa para participar e um técnico que comandava os treinos de pista à noite 1x por semana, apenas isso. Tive oportunidade de participar de vários treinos desses quando estive lá.Não havia frescura, era treino e só!

    Agora me desanimou muito o que presenciei hoje cedo: fui treinar na pista do Cepeusp, e havia um grupo lá tendo uma aula com uma professora. Eles estavam correndo, uns andando, ok, mas usando as raias aleatoriamente, conforme a vontade. Ok, como ia fazer 400, escolhi a raia mais vazia, fiz na 3. Para minha surpresa a professora deu um assovio e todos inverteram o sentido!!!!! Todos em sentido horário por 10 minutos! E havia muitas outras pessoas na pista fora da aula. O caos…Não acreditei….fazer o que? Com certeza a professora é formada e está dando aula na USP!! As pessoas não tem noção, e quem deveria orientar tem menos ainda?

    Aguardo o de amanhã…

    Curtido por 1 pessoa

    • Julio Cesar Kujavski disse:

      Adriana, nem dá vontade de treinar em uma pista desse jeito.

      A pista onde treino é de uma universidade particular, fica a 2 km de casa, está quase sempre bem vazia, somente com alguns caminhantes ou pessoas trotando. não tenho problema de tráfego. Tem vestiário, chuveiro, etc, mas nunca uso.
      A única desvantagem é que é de terra, e não dá pra treinar com tempo chuvoso. Outro dia tive um grande desgosto, algumas crianças andaram de bicicleta na pista durante o tempo chuvoso e havia valetas enormes feitas pelos pneus.

      Quando tenho tempo e estou afim de treinar em pista sintética pego e carro e vou pra Curitiba treinar na pista da Unicemp, todas as vezes que fui lá estava vazia e fiz o treino com toda tranquilidade, e ainda uso o vestiário.

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  13. […] Ontem falei do que aprendi sobre corrida aqui na Irlanda. Porém, o que mais me chama atenção é a diferença de como o brasileiro é paternalista quando o assunto é saúde & corrida. Nem questiono o fato de muitos profissionais de Saúde que trabalham com corrida tentarem fazer o treinamento transparecer como sendo algo complexo, que requereria um acompanhamento minucioso. Isso, logicamente, serve para valorizar a quem vende o produto. Mas corrida é justamente o esporte mais simples que existe em sua prática e essência. […]

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  14. Ciro Violin disse:

    Balu… não sei se ja viu isso

    se ja viu desconsidere

    http://www.arch2o.com/furoshiki-wrap-around-shoes-masaya-hashimoto/

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