Sobre Nutrição Esportiva e o Incompetente do Bem

Dias atrás fui comparado à Bela Gil. A comparação me é indiferente, não me soa como elogio nem como ofensa. Eu conheço bem a vida do pai, o cantor, mas desconhecia detalhes da Bela. Basicamente ela foi denunciada por não poder exercer a profissão de nutricionista. Acho que vocês já sabem o que acho da papagaiada corporativa na Nutrição e na Educação Física (aqui e aqui). As pessoas mais interessantes que escrevem sobre esses temas não pagam o nosso pedágio-pelego…

Não se engane achando que eu defendo que diploma seria bobagem. Não é! É um argumento muito pobre limitar-se a dizer que há gente diplomada incompetente e gente boa que nunca estudou. Mas no caso da Saúde, a coisa assume um ar preocupante porque você pode trocar de mecânico ou de assistência técnica com prejuízos apenas financeiros, sem prejuízo à sua integridade. Porém, quando uma categoria diplomada parece assumir uma posição no assunto corrida, acaba sendo sempre mais seguro irmos para o lado oposto. Isso é o preocupante!

Já falei disso quando foi com “jornalistas corredores” porque eles parecem ter um talento especial para escolherem juntos o lado errado. E a mesma regra funciona sobre revistas de corrida quando falam de Nutrição. A quem recorrer? A um profissional? Porém, isso está longe de ser garantia, ainda assim não falta quem defenda a tese furada.

2009-015-counting-caloriesA Revista Exame, por exemplo, trouxe uma matéria sobre mitos e verdades na corrida. Lá havia questões sobre Nutrição. Vamos ignorar o fato de que não há nada escrito no assunto originalmente em português pelas mãos de algum treinador que não cometa erros crassos e graves. Para alguém minimamente iniciado, não é necessário recrutar muitos neurônios para chegar às conclusões certas da matéria. Nisso o entrevistado não tem culpa. Mas há um trecho da fala que me incomoda muito.

O Renato Sobral é coordenador do curso de Educação Física de um tal IBMR. Para ele (friso meu em negrito), “a orientação especializada por um profissional de educação física é fundamental, pois (…) qualquer forma de exercício físico sem orientação traz riscos à saúde”. A frase do Sr. Sobral contém em sua essência necessariamente uma inverdade, da qual ele estaria ciente, ou um desconhecimento do tema, o que é o mais provável. Eu falo isso com segurança porque profissionais da área da Saúde não estudam nem lidam em seus cursos com Matemática nem com Risco.

Nas palavras de Sobral está implícito um hábito terrível e generalizado de toda uma categoria que é a de aceitar o que alguém mais velho ou antecessor seu praticou ou disse. É o péssimo hábito do não questionamento, é a FÉ substituindo a evidência como método, é o achismo servindo como base lógica de raciocínio deles.

Não há jeito dele, Renato Sobral, conseguir mostrar que a categoria é fundamental. Se tentar, é capaz de chegarmos à esperada conclusão de que um professor de Educação Física AUMENTA as chances de virmos a sofrer na corrida de um determinado grupo de lesões. Será que ele viria então defender o fim da obrigatoriedade? Duvido, sei bem como funciona o corporativismo dessa gente.

Pois se o coordenador repete um mantra tão sem fundamento, o que esperar dos alunos que passam 4 anos a ouvi-lo??

Nas palavras do Sr. Sobral parece quase transparecer boa intenção. Mas há uma categoria que faz a boa intenção virar método e fundamento. Vou roubar uma expressão que ouvi esses dias. A prática da boa intenção sem assegurar resultado prático é o que caracteriza o “incompetente do bem”. O Sobral é mais um incompetente do bem quando acredita em sua própria afirmação. Se você faz isso que ele prega, ou seja, falar de um assunto técnico na base apenas da fé, acredite, você dá um passo em direção à uma prática comum em outra categoria, a da Nutrição.

O Nutricionista Esportivo é, talvez, o maior Incompetente do Bem na Corrida.

low-carbO modo como é ensinada e praticada a Nutrição em nossas universidades transforma o Nutricionista Esportivo, do ponto de vista do risco, um profissional que não deveria jamais ser consultado na saúde. A categoria argumenta que toda orientação nutricional no esporte deveria ser feita sob tutela de um nutricionista qualificado. Porém, o método na Nutrição é justamente o estabelecimento de padrões sem uso total de… método científico. Ou seja, sua fonte é a boa intenção, sem que haja resultado prático comprovado. Esse é o Incompetente do Bem, aquele que acha que deve e pode ser avaliado apenas pela sua boa vontade, não pela competência e/ou resultados práticos.

Obviamente que há gente competente na Nutrição Esportiva. São poucos os nomes e dificilmente estão nas revistas. Recentemente a Revista O2 fez uma matéria que prima pelo acerto. Conseguiram juntar na edição de Abril aquilo que pode ser de PIOR em conceitos nutricionais. Requer um grande esforço e certo talento quando você tem que escrever para uma revista e, ainda que com direito a consulta, você deixe que publiquem conceitos tão tortos e equivocados sobre aquilo que você deveria dominar.

A nutricionista esportiva Carla Stefânia diz que é “perigoso” treinar de estômago vazio, em um misto de ignorância no assunto, desconexão com a realidade e distância da prática (como também dos livros). Não é só isso, a profissional recomenda que “se alimentar com maior frequência pode ajudar na aceleração do metabolismo”, esse um conceito jamais provado, voltando à ideia do Incompetente do Bem, aquele que apela à boa intenção, não ao resultado comprovado. Ela segue dizendo que “importante mesmo é ter um controle calórico”, mesmo que isso não seja a causa do controle do peso. Mas como eu disse, a matéria acertou porque reuniu um grupo de gente falando bobagem. Ao lado dela estava o Rafael Oliveira de Lima, outro que faz o papel do incompetente do bem quando afirma que “o importante mesmo é ter um saldo calórico negativo diário”, uma tese, reforço, jamais provada.

img-20140323-wa0001Mais à frente, quando fala sobre carboidrato, a nutricionista Paula Crook defende o consumo de carboidratos como um nutriente essencial, em sinal claro que, ainda que estudando 4 ou 5 anos, o incompetente do bem continuará a pregar algo que a fisiologia contradiz completamente, independente do que ela confie em sua crença.

Por fim, quando fala sobre macronutrientes, a nutricionista esportiva Carla Stefânia novamente recorre à fé para tentar estabelecer qual seria a proporção deles em uma dieta adequada, ainda que ela pareça não saber sequer as causas do ganho de peso ao dar valor à falácia do balanço calórico.

Enfim, a revista, como disse, foi certeira ao juntar 3 profissionais incompetentes do bem, que recorrem à boa vontade. O problema maior é que a categoria prega a si a tarefa de dizer como é uma alimentação correta, mas nas inúmeras amostras que você encontrará nas revistas, revelam uma capacidade da categoria de ir ao lado diametralmente oposto. Sendo assim, a gente sabe que nutricionistas esportivos assim podem até ser perigosos na saúde, mas ao ler textos com suas orientações, ao menos temos um bom indicativo do que não devemos fazer.

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24 pensamentos sobre “Sobre Nutrição Esportiva e o Incompetente do Bem

  1. Enio Augusto disse:

    Achei este post sensacional.

    Esse negócio de treinar em jejum é muito bom. Qual o motivo de demonizarem tanto?

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  2. José Luís disse:

    Toda vez que leio as orientações dos nutricionistas começo a achar que eu não sou um ser humano normal. Faço meus treinos e corridas (incluindo meia maratona) em absoluto jejum..E nunca tive tontura, suor frio e desmaios..Ao contrário, tenho muita energia.

    Já tentei comer massas na véspera de treino e o resultado foi desastroso. Meu desempenho piora muito. Aquela energia “essencial” dos carbs não aparece.Como os especialista explicam isso ?? he he..

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    • Carlos disse:

      Ufa, ainda bem que hoje de manhã eu comi 3 fatias de queijo e 3 de copa lombo antes de fazer 1 hora de musculação, pular uns 10 minutos de corda e rodar 15k com pace de 4:30, ou seja, segui os conselhos da Dr. Carla Stefânia. kkk

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  3. Luis Mello disse:

    Gary Taubes, Nina Teicholz, Jeff Volek, Stephen Phinney, Loren Cordain, Mark Sisson, John Kiefer, Robb Wolf. Quem mais é bom? Ah! Ia esquecendo do Willian Davis e do Tim Noakes. Abraço.

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  4. Nei Brito disse:

    A minha experiência pessoal de treinar ou correr em jejum é a melhor possível.
    Mas como diz um amigo: a sua experiência só serve para você.

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  5. Não vou entrar na polêmica da nutrição. Mas eu sempre impliquei com essa mania brasileira de que pra correr você precisa de uma pletora de profissionais: técnico, nutricionista, fisioterapeuta, professor de musculação na academia e sei lá mais o que. Que, por sinal, está em total desacordo com que o que leio a respeito da cultura de corrida nos EUA.

    Um das coisas que mais gosto na corrida é justamente que é um esporte simples. Short, camiseta, tênis (ou não) e sai correndo. Pronto. Pessoalmente ainda uso um Garmin 10 para marcar tempo e distância. Só.

    Os profissionais podem ajudar sim mas NÃO SÃO INDISPENSÁVEIS. Essa cultura de terror que existe no Brasll sobre isso cansa.

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    • P.S. Corro quase em jejum: uma caneca de café sem açúcar, uma fruta e voilá. Pé na tábua. O que é quase nada mesmo considerando que o meu jantar quase sempre é um lanche bem frugal (sinto pouca fome a noite). Até agora não morri. Já experimentei correr até sem isso e também não morri mas não senti bem, então mantive o esquema café + fruta. E cada um que faça o que achar melhor.

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  6. Luis Mello disse:

    O programa bem estar é um ótimo exemplo do que médicos , nutricionistas e jornalistas fazem de errado com a abordagem do tema”gorduras”. Faltou um político e um professor de educação física também mal informado (ou mal formado) para fechar.

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  7. Marcos Lins disse:

    Boa noite Danilo, parabéns pelo posicionamento, sou profissional de educação física e estudante de nutrição. Apesar de não trabalhar com corrida e conhecer muito pouco sobre o tema, pois meu trabalho é mais voltado para musculação e treinamento de força, tenho a mesma impressão quando leio sobre a utilização de certos suplementos, muita gente crê que o personal pode indicar e muitos o fazem, já na parte dos nutricionistas, muitos acreditem pela fé, na prescrição de coisas absurdas voltadas ao emagrecimento e hipertrofia. Gosto muito do trabalho do professor Murilo Dattilo sobre a atividade em jejum que ele costuma falar, realmente não trazer malefícios, gostaria de saber a sua opinião para um tema que é muito corriqueiro em academias. O famoso AEJ, aeróbio em jejum para emagrecimento, tem fundamento? Sei que não é o enfoque da sua crítica, mas muita gente pode ler e reproduzir como se corroborasse com tal prática.

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    • Danilo Balu disse:

      Oi Marcos! Tudo bem?
      Obrigado pelas palavras!
      Confesso que não conheço o AEJ por esse nome/sigla… nem seu fundamento detalhado. Mas vou falar o que eu ACHO… o aeróbio em jejum pode emagrecer porque vc ensinaria o seu corpo a executar esse trabalho sem fornecimento prévio de CHO. Mas sou bem resistente em dizer que isso emagreceria mais (ou menos). Faz sentido? Para mim faz. Essencial? Não mesmo. A vantagem do jejum é justamente forçar, ensinar o corpo a queimar gordura como substrato. O AEJ talvez poderia recrutar uma gordura que não seria recrutada em outra condições. Mas vejo mto mais fé e otimismo do que fundamento. Saudações!

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  8. Kokão disse:

    Primeira vez comentando aqui e só tenho a dizer: fantástico texto, Balu! Acho engraçado que 11 em cada 10 educadores físicos que trabalham em academia idolatram o Arnold Schwarzenegger, que tem sua enciclopédia de fisiculturismo em inúmeras ementas de cursos de graduação de Educação Física pelo Brasil. Pois bem, o Arnoldão não tem formação como educador físico. Ele se formou em “marketing internacional de fitness e administração de negócios” (tradução livre), ou seja, ele é um ADMINISTRADOR. Nunca vi alguém questionar o conhecimento do cara sobre musculação, aliás, como alguém poderia? Muitos dos exercícios utilizados hoje nas salas de musculação do mundo todo foram inventados ou adaptados por ele, um administrador. Será que um engenheiro que corre a vida inteira, gosta do assunto, busca conhecimento de forma independente, testou em si inúmeros métodos de treinamento, não é maior conhecedor sobre o tema que um educador físico recém-formado? Quem tem mais a nos ensinar sobre nutrição e longevidade, a senhorinha ativa de 90 anos que acorda cedo, vai fazer suas coisas e que cozinha sua comida na banha de porco ou o nutricionista de meia idade que faz reposição hormonal? Enfim…

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  9. luis disse:

    O programa bem estar repercutiu no blog low-carb-paleo. recomendo.

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  10. […] Dias atrás falei de como o coordenador de um curso dizia que treinar com um treinador é fundamental e arriscar fazê-lo era perigoso. Navegue em qualquer seção de nutrição de revista de corrida e a frase só muda o sujeito, ainda que os profissionais convidados não respeitem a fisiologia e preguem bobagens como balanço calórico ou “carboidratos essenciais”. Justamente por isso que reforço que o perigoso é IR ao nutricionista. […]

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  11. […] dados? Vamos ver?!? Bom, acho que já sabem o resultado porque o talento da revista em reunir “incompetentes do bem” quando o assunto é Nutrição é de uma tradição e competência enormes. Em […]

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  12. […] não tenho dúvidas de que a Alessandra Luglio e Marco Jafet são dois incompetentes do bem. Ou seja, até têm boa fé, tenho certeza disso! Mas não entendem do que falaram, recomendam algo […]

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