Esqueçam os cortadores de caminho…

Eu tinha decidido não falar sobre a desclassificação de atletas na Golden Four ASICS São Paulo de domingo por uma razão muito simples: ao falarmos de bandidos e de trapaceiros, acabamos deixando de lado os inúmeros acertos da parceria ASICS-Iguana naquela que é uma das provas mais cuidadosas da distância no país.

São 5 anos, 19 edições, quase 70.000 concluintes em provas quase impecáveis no histórico. Com certeza, para azar da marca, faltam novidades em um circuito que já anda sozinho que seja capaz de concorrer à altura com a notícia de que houve reclamação exagerada acerca dos premiados com medalhas banhadas a ouro, que é dada aos 100 melhores homens amadores e 20 melhores amadoras (Top 100 e Top 20, respectivamente).

Depois de tanta grita, a organização resolveu desclassificar cerca de 115 pessoas numa manobra que não agrada nada à marca. Primeiro porque assim a prova não registrou crescimento (sim, crescer é importante, ainda que neguem). Segundo, porque tanta gente limada desviou o assunto de sucesso do evento para trapaceiros como tema central. Uma pena.

dick_vigarista2O que muita gente não sabe é que em praticamente todas as edições a ASICS sempre soube lidar muito bem com injustiças, enviando cerca de 3 medalhas pós-prova depois de verificado quem era ou não merecedor. Então essa grita é inexplicável. A empresa acertou como vinha acertando e corrigiu na medida do que é possível. Lembre-se: trapaceiros já saíram impunes da Maratona de Boston, da Maratona Olímpica e da Copa do Mundo. Por que não sairiam de uma corrida de rua? À organização resta o que lhe cabe, e fez isso bem!

O que eu não entendo nessa comoção é a preocupação com terceiros. Houve uma grita com cortadores de caminho. Mas já chego a esse meu ponto.

Para cortar caminho, um ÚNICO tapete no meio do percurso NÃO é garantia de justiça. Tecnicamente são necessários pelo menos 2 tapetes e a desclassificação aconteceria assim apenas ao você NÃO ter registro em NENHUM deles porque estatisticamente usar apenas 1 é BEM arriscado. Ao ter registro apenas em 1, uma simples “macro no Excel” pode verificar se deve ou não haver desclassificação. Colocar mais tapetes é um processo bem custoso, mas por que isso já não é padrão quando há 2 (ou mais) tapetes?

São 3 motivos simples: má vontade, preguiça e/ou comodismo. Isso porque quando você desclassifica alguém, você pode ganhar um cliente insatisfeito. Só quem está 2ª feira pós-prova no escritório sabe como um corredor sem resultado é impaciente e pode ser (com toda justiça) um chato. Mais: desclassificar reduz o “sucesso” (leia-se números) do seu evento.

Resumindo:

  1. Com apenas 1 tapete você faz muito pouca coisa que não seja adiar a entrega de prêmios (em dinheiro ou por categoria);
  2. Com 2 (ou mais) tapetes você oferece uma garantia ENORME de tirar com segurança da premiação e do resultado final os cortadores de caminho;
  3. Não importa quantos tapetes haja, não há como a organização deixar de dar medalha a quem chega com número de peito no pórtico final sem “dar na cara”, ou seja, em tempo razoável. Para fazer isso, teríamos que voltar aos anos 90 quando eram distribuídas senhas no trajeto. Praticamente impossível.

Aí eu pergunto: por que tanta ira que chega ao ponto de sugerir perseguição e lista pública contra cortadores de caminho?

Por quem você corre?

Cada um é cada um e há louco que se sente bem correndo 12km em uma Meia. O que podemos fazer contra alguém assim que sequer roubou prêmios? Não acho que deva ser esse o destino de nossa energia na realização e participação de um evento. Deixemos esses loucos para lá!

Na Golden Four, entre os Top 100 e as Top 20 é improvável que haja mais do que 3 ou 4 trapaceiros. Isso porque a ASICS controla na chegada essa entrega. Mas o debate apressado sobre trapaceiros deu a impressão que o prêmio é uma ilusão. Mas não, não é! Não, não foi!

O ponto é…

Calma, gente… não é preciso uma perseguição. Cada louco com sua mania. O que nos resta é sugerir (e cobrar!) que as organizadoras adotem a desclassificação como padrão no resultado final quando o tapete assim indicar e possibilitar. É o que dá para fazer por agora sem gerar custos extras. Agora, criar método de entregar medalha? Entendo a bronca dos mais competitivos, mas por que se preocupar com essa gente louca??

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21 pensamentos sobre “Esqueçam os cortadores de caminho…

  1. Balu: estava no Rio no dia da maratona. Ia correr mas uma lesão impediu. Fui assistir a corrida e vi um bocado de gente com número de peito de maratona “entrando” na corrida no Leblon. E na chegada uma boa turma com perfil tendendo a obeso chegando com 2h50′. Há maluco para tudo nesse mundo. Concordo contigo. É melhor deixar isso para lá, afinal ninguém perdeu dinheiro por causa desse comportamento.

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  2. Enio Augusto disse:

    De fato, a Golden Four é uma bem redonda.

    Isso dos cortadores acontece sempre, não? Mas só neste ano vi tanta reclamação. Qual seria o motivo para tanta revolta? Uma medalha dourada em SP?

    A mim, impressiona o que as pessoas fazem por uma medalha de top 100 ou 20.

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  3. Concordo plenamente. Os únicos que tem razão em esbravejar contra os cortadores de caminho são aqueles que perdem alguma coisa com isso, seja um troféu, medalha especial, prêmio em dinheiro, o que for. Para um pangaré como eu que diferença faz a tabela dizer que cheguei em 1.500º lugar ao invés de 1.497º? Fala sério.

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  4. zlcardim disse:

    Tenta explicar isso para quem treinou como louco para ser Top 100, sonhou com a medalha de ouro, chega em 101º e descobre que houve trapaça de quem chegou na frente… Medalha por meritorcracia exige cuidados especiais. Abs.

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    • Danilo Balu disse:

      Foi exatamente tudo o que eu disse no texto, tenho certeza que os Top 100 e Top 20 ganharam sua medalha. Foi sempre assim.

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      • Fernanda disse:

        Balu, tudo bem? Esse ano, cheguei em 21º, vi a última top20 ser entregue e há uma “cortadora de caminho” na minha frente. Por uma curiosidade mórbida, olhei alguns nomes aleatórios que também levaram TOP20, correndo pra baixo de 1:30, mas marcaram 30′ em corrida de 5km há um ano atrás. De todo modo, ainda considero que a G4 é a melhor prova nesse sentido e que deixar de entregar a medalha na hora seria triste: estaríamos dando razão a quem trapaceia e nunca teríamos controle absoluto dos resultados de qualquer modo. Um abraço,

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      • Danilo Balu disse:

        Vou ver isso para vc… mas já sei de antemão que uma mulher Top 20 não aparece(u) nos resultados porque correu com número de homem…

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  5. Felipe Arakawa disse:

    Eu vi mulheres cortando caminho, e cheguei a ultrapassar algumas no km 18, 19, que sinceramente, não tinham perfil de quem roda Meia Maratona a 3’50″/km, mas não disse nada. Eu concordo que a apuração na chegada é bem feita, aliás, a Asics gasta muito com o que é mais caro, GENTE. Eles colocam várias pessoas na chegada para fazer essa conferência, de analisar um a um, e então entregar a TOP 100/20. Eu fico chateado por causa daqueles que ficam a 1 ou 2 posições da TOP 100 e perdem por causa de bandidos.
    A minha sugestão é manter o nome das pessoas com o termo “desclassificado” no lugar do tempo, mas sem mencionar o porquê. E claro, colocar mais um tapete, de preferência lá na Politécnica.
    Em 2014, ajudei um cara a entregar uma TOP 100 que não lhe pertencia, e foi muito próximo do limite. A reação do agraciado, foi emocionante, o cara me abraçou, agradeceu, enfim…. Essas coisas vão continuar acontecendo, o que podemos fazer é, maximizar, dentro do possível, os artifícios de controle de tempo no trajeto e continuar vivendo, porque pra mim, acaba virando uma coisa non sense, essa discussão toda, o prazer de correr essa prova tão bacana quase que foi embora, de tanta preguiça.
    E sobre a galera que usa numeral de outras categorias, uma medida “simples”, seria mudar as cores. Exemplo: número preto para homens, número vermelho para mulheres, número azul para acima de 60 anos.
    Abraços!

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  6. Mauro Leão disse:

    Ser humano é um bicho muito louco… As vezes é isto é bom, outras ruim…

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  7. adrianapiza disse:

    A ASICS desclassificar e deixar claro quem foram os desclassificados no site dos resultados não é novidade. É só ver a prova de Brasília 2013, estão lá os nomes e o D de desclassificado. São exatamente os que não tem passagem registrada no tapete de 10k. Só na primeira página de resultados do feminino, metade está com D! Portanto, não entendo toda essa onda como se isso fosse novidade. Não é novidade que isso aconteça e não é novidade que a organizadora desclassifique. O auê todo na minha opinião foi porque foi publicado em blog, só por isso.
    A ASICS mandar posteriormente a medalha para quem teria direito e não recebeu, está corretíssimo, mas diria que não é a mesma coisa receber ali na chegada ou depois em casa pelo correio.
    Quanto a esses malucos, não é questão de se preocupar com eles, mas da mesma forma que não gosto de ver pipocas na prova, não gosto de ver gente burlando as regras, seja lá do que. Me incomoda sim, infelizmente!

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    • Danilo Balu disse:

      1. Acho meio doentio cortar caminho e terminar como se fosse algo normal, sair comemorando, postando, falando…. Mas cada louco tem sua mania. Não tento mais entender…

      2. Simplesmente NÃO há um meio de se fazer a entrega na hora com 100% de acerto. Não dá! Simplesmente não dá. Dá para acertar 98% e dar a esses a sensação de receber ali na hora, na frente de todos os seus e roubar pra sempre de 1% essa honraria. Ou dá para fazer uma entrega fria, pelo Correio, 10 dias depois, impessoal, com acerto de 99% e roubar de 98% a chance de ter uma entrega na linha de chegada. Eu acho que o risco vale! 1% pagará pelo mau caratismo dos trapaceiros SEM ter perda material. Acho pior cobrar isso de outros 98%. Vc não?

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    • Danilo Balu disse:

      Já fui vítima no ex-maior-bate-saco do pedestrianismo brasileiro, a Volta da Penha. E revoltante, ultrajante. Hj, se eu vejo enqto estou competindo, ou seja, me acabando para chegar lá no percentil 1-2%, ou lutando por categoria. eu xingo, acuso, guardo o número e vou tirar satisfação no final. Qdo estou lá no pelotão do meio, viro um antropólogo um sociólogo, fico tentando entender o que faz alguém fazer isso… é meio patológico… enqto não traz prejuízo (a mim ou a um 3o), prefiro ignorar essa maluquice…

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  8. Ângelo Caexeta disse:

    Corredores sofrem de SIVA (não confunda com SIDA, sigla de AIDS em Portugal), que é a Síndrome Incontrolável da Vontade de Aparecer. Sintomas: tirar foto de GPS e rapidamente postar em alguma rede social, enfiar sua filha pequena em uma cadeirinha em plena madrugada e sair correndo uma maratona se sentido o paizão, cortar caminho e inventar uma auto-explicação de que isso não faz “tanta diferença do resultado”, uso indiscriminado da palavra “superação”, entre outras bobagens que me faz sentir vergonha alheia. Remédio: adquirir senso de ridículo já seria um bom começo.

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    • Rafael disse:

      acho que não só os corredores, é da natureza humana (querer ser especial). Não é por acaso o sucesso do facebook.
      Claro, tem gente que exagera, mas não sou contra.
      Se a pessoa treina, se supera, atinge um resultado legal, eu quero saber, quero dar os parabéns e incentivar a pessoa a continuar no caminho.

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  9. Pior foi no Troféu Brasil de atletismo Master, na prova dos 5.000 mt resolveram, pra ganhar tempo, fazer uma bateria com mais de 20 atletas (muito pra prova de pista).
    Não havia árbitros suficientes então cada árbitro pegou 3 ou 4 atletas para contagem de voltas.

    Resultado: Alguns atletas fizeram uma volta a menos (o que numa prova de 5.000 é muuuuuita coisa, mais de 1´20″ pelo menos.

    Fui prejudicado, pois teve gente com uma volta a menos que eu que aparece na minha frente na classificação até hoje. Nunca corrigiram nem vão corrigir.
    Não liguei muito, mas fiquei “chatiado”.. prova de pista tem que ser organizada.

    Agora estou pensando em ficar nos 800 e 1.500, aí vai ser bem mais difícil os árbitros errarem a contagem de voltas.

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  10. Marise Martins disse:

    Tem mt gente fazendo rodagem menor do que a prova mesmo estando inscrito,assim usa a estrutura e faz o q convem.Como na G4 tem a medalha diferenciada seria justo com os q estão em busca dela q isso fosse verificado.

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  11. […] assunto sempre volta à tona: por que amadores trapaceiam cortando caminho? Eu já meio que desisti de entender essa doença, principalmente quando ela não traz prejuízo material direto, mas acompanhar não deixa de ser […]

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  12. Maria Vitória Abreu disse:

    Balu, estou no avião indo para a Golden de Brasília e lendo seu post sobre a última G4 de SP. Concordei com quase tudo que vc disse, menos com o “deixar pra lá”, apesar de concordar que esses que cortam caminho são loucos.
    Porque não concordei: pois no Brasil hoje, vivemos muitas mazelas por causa do “deixa pra lá”. Muitas pessoas são desonestas, querem o que não é delas e deixam pessoas honestas, que pagam seus impostos e cumprem com suas obrigações, com o prejuízo. Isso é uma questão cultural que nos assola. Esse “deixa pra lá” é responsável por muitos problemas que enfrentamos, e isso se reflete também nas corridas.
    Eu defendo sim, a desclassificação de atletas desonestos, de criação de listas e sei lá o que mais puder ser feito para coibir essas pessoas. Elas só fazem isso pois tem a certeza da impunidade, como tantos outros no Brasil fazem coisas terríveis pela mesma certeza. Aqui, pelos menos nas corridas, não pode ser a terra do “deixa pra lá”, para que esse tipo de comportamento não prolifere.
    A ASICS está de parabéns, por fazer o melhor circuito de meias maratonas do país. Percebo que a ASICS realmente se preocupa com as pessoas. Só precisa mesmo ficar atenta à estes engraçadinhos e criar novos métodos para evitar os cortes de caminho, para que as Golden Four continuem brilhando como sempre. Abraço!

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