Sobre o “Tread Lightly” – parte 2

*Continuando o post de ontem sobre o livro Tread Lightly (– form, footwear, and the quest for injury-free running) de Peter Larson em co-autoria com Bill Katovsky

O capítulo 6, a NTreadLightlyCover220pxação Pronadora, é um alento! Aqui um parêntese: sempre que me perguntam se sou pronador ou supinador, eu respondo “sou corredor”. E se você me pergunta se sou corredor (ou se sou maratonista), digo que eu corro. O problema não é não gostar de rótulos, meu problema é que criar categorias é o melhor jeito de você criar um possível cliente a algo que você deseja vender. Quando você faz do simples algo complexo, você cria a categoria de especialista que atende ao leigo. Por isso que já vi treinador dizer que precisamos de alguém (com CREF e diplomado) a ensinar corredor amador a respirar- sério! Não ria! -.

A importância desmedida que damos ao tipo de pisada de alguém é um misto confuso de arrogância, ignorância e bom marketing. Você tem o ignorante que simplifica o complexo, o arrogante que acha que consegue corrigir com um pedaço de borracha um erro que “Ele lá de cima fez”, e você ainda tem quem faça da pronação natural em milhões de anos quase que uma doença, com um remédio que ele ajuda a vender.

No capítulo 7 os autores falam do “Tipo de Pisada”. Sem querer ofender, eu separo aqueles que buscam amortecimento em calçados em 2 tipos: os otimistas e os ingênuos (ou ignorantes no assunto). Repito: não se ofenda. Todos somos em maior ou menor grau ignorantes em muitos assuntos. Jogar no modelo de R$600 a responsabilidade para te ajudar a correr melhor não faz de você uma pessoa melhor ou pior. Mas agora você já sabe o que eu acho (risos).

Maximalist-shoes_R1_735x1102-683x1024Mas o melhor deste capítulo é justamente ele não simplificar. Não existe essa de calcanhar ou ponta do pé. Existe de tudo, mas o que mais existe é acharmos que de repente, como um botão, se possa mudar nossa pisada ou fazer desaparecer décadas de um costume antigo enraizado. Comprar um tênis baixo não te faz pisar com o pé todo (midfoot), assim como você passar a correr não faz de você um corredor adaptado, ainda que corra 21km já no primeiro ano.

O capítulo 8, se não é o mais brilhante, talvez trate do tema mais ignorado entre treinadores: A Passada na Corrida. Talvez o maior efeito colateral dos tênis convencionais de corrida, é tornar a corrida passiva, você transfere ao tênis o que deveria ser função sua, a de correr economicamente e de forma mais segura. É sobre a anti-fragilidade que Taleb defenderia, é sobre o conforto nos trazendo enormes prejuízos quando acha que traz benefícios. Corrida, em certo grau, NÃO poderia ser assim confortável. E de lambuja é neste capítulo ainda a explicação biomecânica, sem achismos, do porquê borracha macia não te amortece.

MoreWeightMoreInjuries_Banner_735x1102-683x1024Por fim, o capítulo 9 que vai para a parte de Nutrição. Capítulo bom, mas dispensável. Não quero ler de corrida em livro de Nutrição, por isso é dispensável. Mas o autor segue coerentemente a linha evolucionista que rege a obra toda: nossa modernidade não consegue superar a genialidade da Mãe Natureza.

Em sua ótima conclusão, o livro DEFINITIVAMENTE não dá respostas simples e que atendam a todos justamente porque elas não existem. Tênis Maximalistas podem te fazer muito bem, assim como minimalistas podem te machucar e a corrida descalça pode te fazer pior, justamente o contrário de tudo o que eu acredito. É a individualidade biológica tão linda, mas que deixa o debate mais rasteiro porque justifica a barbeiragem do incompetente.

Mais do que um excelente livro, ele é libertário. Como disse na primeira parte, o leigo consegue tirar dele muita coisa. E vai poder conversar quase de igual para igual com seu treinador e, muito mais importante, nunca mais vai precisar ler nada que saia escrito nas revistas e sites especializados.

Boa leitura!

Etiquetado , , , ,

5 pensamentos sobre “Sobre o “Tread Lightly” – parte 2

  1. Vinicius Morais Nunes disse:

    Balu concordo contigo. Estou sempre em busca de tênis minimalistas para correr. Atualmente corro de asics 33, mas estou em busca de algo com menos drop. Tens alguma sugestão? Abraço e seu blog é fantástico.

    Curtir

  2. Fábio Rocha disse:

    Já corri, brinquei de pique, joguei muita bola descalço quando criança e, nunca me machuquei, só arranquei o tampão do dedão (essa é clássica)..E não me lembro de ter nenhuma lesão muscular ou de articulação…. acho que estou ficando velho rs ..Só que hoje em dia não tenho coragem, medo no que vou pisar…… Culpa da industria do calçado rsrs, pois se eu correr 10 minutos descalço abro meu pé (pele do pé ficou fina rs)…… Mas tudo é questão de adaptação….Por isso concordo que o tênis não faz vc um corredor melhor e não previne lesões……Hoje em dia me adaptei aos “Nikes” (lunarglide, dual fusion, Free)…Acho que tênis é questão pessoal…….. Parabéns, excelente matéria!

    Curtir

  3. […] verdade, fiz o texto depois de falar um pouco em duas partes sobre o ótimo Tread Lightly (aqui e aqui). O drop, a espessura (que atua indiretamente e decisivamente no peso) e a capacidade do tênis se […]

    Curtir

Duvido você deixar um comentário...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: