Sobre Nutrição, low-carb e recomendações dos veículos de corrida

Cerca de duas semanas atrás, um cardiologista britânico, que é um dos caras mais pertinentes na Nutrição atual, divulgou artigo escrito com colaboradores (entre eles uma excelente nutricionista) que dizia o que muitos nutricionistas não sabem e o que muito treinador não sabe ou não quer que você saiba: atividade física é MUITO ineficiente na promoção do emagrecimento. Já falei muito sobre essa ineficiência, vocês já sabem o que acho.

Good Calories, Bad Calories - fats, carbs, and the controversial science of diet and health, Gary TAUBESMas timing é tudo nessa vida, né? Na mesma semana, o quadro “Medida Certa” no Fantástico da TV Globo batia equivocadamente na tecla de nos mexer mais para evitar obesidade. Uma pena, já que nenhum canal de qualquer mídia do país tem peso igual no comportamento do brasileiro. Mas nosso azar não parou por aí. A maior revista de corrida do país, a Runner´s World, veio com uma chamada (e uma matéria) medonha na capa que ia na exata contramão da ciência dizendo: o segredo está no treino, não no cardápio.

Sempre que vejo essas coisas, faço mais força para não ficar repetindo insistentemente: leia o que dizem sobre Nutrição nos veículos de corrida, depois faça o contrário, é mais seguro. Por que fazer o oposto? Basicamente porque são muito ruins quando falam de Nutrição. Veja por exemplo dois outros textos no vácuo do artigo do ótimo médico Aseem Malhotra. Em um há uma repetição medonha de equívocos e mais equívocos sobre o papel do exercício na obesidade enquanto em outro uma nutricionista fala sobre nos entupir com carboidrato. Sério, não preciso pagar alguém titulado para fazer e falar tanta barbeiragem. Posso fazer isso sozinho, bem melhor e de graça.

Salt Sugar Fat - how the food giants hooked usA Nutrição é cheia de nuances como a individualidade biológica e dificuldades como a de se executar pesquisas a longo prazo anulando o placebo mantendo tantas variáveis. Mas não é mais possível, não com tamanha oferta de informação, que a Nutrição convencional pregue tanta irresponsabilidade. Abra qualquer veículo e estarão lá “dicas” de hidratação com isotônicos, suplementação de micronutrientes e recomendações de carboidrato sem muito fundamento. E se você se apoiar em órgãos que deveriam ser sérios, corre risco igual. Quer exemplos?

Recentemente falei dos absurdos que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Diabetes Brasil e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) pregam em suas diretrizes para diabéticos. Basicamente eu diria que no caso de alguém adquirir diabetes entre os seus, não corra na direção dessas associações. Fuja delas! Elas são um risco!

 

Depois41dqtLJwO3L._SY344_BO1,204,203,200_ fui ler as diretrizes nutricionais da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Suas recomendações sobre carboidrato e hidratação beiram a irresponsabilidade. Mas não é só isso. Já estou meio que acostumado com a triste ideia de que quando falam de carboidrato, esses profissionais apenas repetem o que aprenderam e culpam o cliente quando ele não emagrece. O ponto é que quando você olha as diretrizes de hidratação, você vê que o documento é patrocinado por uma empresa de… isotônico! Será que os que assinam o documento deixam claro quem paga a conta? Duvido! A máxima “follow the money” realmente NUNCA falha na Nutrição. Como eu disse certa vez ao meu ex-professor: “você é tão livre quanto um taxista”. Isso porque ele prescreve suplemento e ganha participação nos lucros. E acha tudo normal! TODOS os profissionais que assinaram esse documento da SBME não fazem muito diferente, não! São livres, como um taxista!

Por fim, estou escrevendo este texto porque há alento, há vida inteligente na Nutrição. Soube que a Academia Americana de Nutrição (Academy of Nutrition and Dietetics) dos EUA veio dar um tapa na cara de toda essa gente. Em carta aberta ao comitê que prepara as diretrizes nutricionais de 2015 ela vem falar o que dificilmente você ouvirá de um nutricionista convencional, ou seja, ela afirma o oposto do que eles recomendam.

Leiam abaixo ATENTAMENTE, por favor, os trechos principais retirados da carta aberta que roubei traduzida do resumo do blog Dr. Souto.

  1. Deve-se notar que NENHUM estudo incluído na revisão sobre doença cardiovascular identificou a gordura saturada como tendo associação desfavorável com doença cardiovascular
  2. Nós sugerimos que as próximas diretrizes ajudem as pessoas a adotar dietas que não são as recomendadas até hoje, tais como uma dieta de baixo carboidrato, para ajudá-las as fazer escolhas mais saudáveis dentro deste tipo de dieta.”
  3. O consumo de carboidratos leva a um maior risco cardiovascular do que o consumo de gordura saturada. (…) As evidências de múltiplos estudos estimaram o impacto da gordura saturada [no risco cardiovascular] como sendo próximo de ZERO.”
  4. A Academia apoia a decisão de não mais limitar o consumo máximo de colesterol a 300mg por dia, visto que as evidências disponíveis mostram que não a relação significativa entre o consumo de colesterol na dieta e o colesterol sérico
  5. No mesmo espírito de não mais limitar o colesterol diário, a Academia sugere que haja uma revisão semelhante no que diz respeito à gordura saturada, tirando a ênfase da mesma como nutriente digno de preocupação. Embora haja vários estudos ligando a ingestão de gordura saturada e níveis de LDL, isso é IRRELEVANTE para a questão da relação entre dieta e risco cardiovascular
  6. Há um consenso crescente de que uma recomendação única de consumo de sódio para todos os americanos é inadequada, devido ao crescente corpo de literatura sugerindo que os baixos valores de sódio atualmente recomendados estão na verdade associados a um AUMENTO DA MORTALIDADE para indivíduos saudáveis.”

death food pyramidSabe, vou ser sincero… eu ensaiei criar aqui no Recorrido uma seção semanal de Nutrição. O Sergio Rocha também queria uma no Corrida no Ar. Mas nunca tive a disciplina de produzir. No fundo no fundo, não tenho é muito mais paciência. Quando falo dando os nomes, falam que sou raivoso. Odeio quem escreva querendo aplausos e fique nervosinho com críticas.

Hoje fiz questão de não dar nomes, mas poderia reproduzir aqui citando nome e sobrenome dos que escrevem bobagens sobre Nutrição travestindo isso de ciência. E não são poucos! Vou fazer uma afirmação sem nem me dar ao trabalho de verificar porque eu sei que estou certo. O Dr. Souto escreveu os 6 pontos acima e eu não conheço NENHUM que escreva de acordo com eles. NENHUM. Em outras palavras: não há UM que escreva nesses veículos que valha a confiança da leitura de tudo o que escrevem. NENHUM. E isso é muito grave! Muito!

waterloggedA Nutrição padece de um mal terrível: a gordurafobia. Mas há um mal ainda pior: eles não se reciclam e se prendem nesse medo de gordura saturada e sal. E se você diz o óbvio, que ir ao Nutricionista é de um risco enorme, ainda tem que ouvir dizer que a pelegada do CFN não gostou do que você disse.

Essa carta aberta da AND dá uma paz que vocês não imaginam… agora vou poder encher o peito ainda mais para falar mal de quem escreve tanta porcaria.

*ilustrando o texto, coloquei as capas de livros essenciais na Nutrição que passam TODOS despercebidos nas nossas faculdades.

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32 pensamentos sobre “Sobre Nutrição, low-carb e recomendações dos veículos de corrida

  1. Só queria dizer uma coisa: ainda não há consenso, mesmo entre gente séria, de que atividade física é muito ineficiente na promoção do emagrecimento. O Dr. Malhotra está recebendo críticas de vários outros pesquisadores (alguns sérios). Mas, se a Grande Indústria da Alimentação (Big Food) está contra ele, provavelmente ele está certo. Eu particularmente acho que ele está certo.

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  2. Enio Augusto disse:

    Ótimo texto. E as pessoas seguem se alimentando dessas coisas, ficando com fome e não sabem por quê. “Ah, mas eu fiz o que meu nutricionista/médicos/artigos em revistas falam”. Pois então.

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  3. Luis mello disse:

    Parabéns, Balu. Coragem para escrever baseado em análise critica sobre os estudos sérios que temos à disposição é do que precisamos.

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  4. Luis Oliveira disse:

    Sente-se na linha de chegada de uma maratona, um ironman ou qualquer outra prova que exija um razoável compromisso com atividade física consistente e intensa. Conte o número de obesos que terminam a prova. Compare com a incidencia de obesos na população geral.

    Podemos discutir se a causalidade existe e em qual direção, mas a corelação entre exercício físico e peso adequado parece bastante forte. Ou não?

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    • Rodolfo Del Valle disse:

      Luis, entendo seu ponto, mas discordo. Não acha que maratonistas e triatletas possuem um “compromisso alimentar saudável” maior do que a população em geral?

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      • Luis Oliveira disse:

        Não é o que eu vejo, na minha experiencia pessoal, Rodolfo. Não acho que a média esses atletas de endurance se elimentem muito melhor do que a população geral. Basta ver a quantidade de gel, isotônico, barrinhas, etc.. Mas naõ tenho evidencia empírica.

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    • Danilo Balu disse:

      Não sei se entendi seu pto…

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      • Rodolfo Del Valle disse:

        Luis, realmente eles consomem uma grande quantidade desses suplementos. Porém, dificilmente verá um esportista (que faz maratona e Ironman) comendo biscoitos recheados, salgadinhos, tomando refrigerantes e comendo doces todos os dias. Mas é só uma percepção minha, também não tenho evidências empíricas.

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      • Luis Oliveira disse:

        Meu ponto é bem simples, Balu: é uma clara correlação entre peso adequado e atividade física. Qual a causalidade, se é que há, me parece um problema interessante. Negar a correlação me parece bobagem.

        Possíveis hipóteses

        1. Atleta de endurance é naturalmente mais magro (só magros se metem com isso)

        2. Atleta de endurance tem alimentação mais “saudável” (entendido como baixo consumo de biscoito recheado)

        3. Exercício físico é uma parte importante (o que é mais do que “ineficiente”) da manutenção do peso

        Acho a 1 risível, a dois pouco provável e a 3 bem interessante.

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      • Danilo Balu disse:

        Vc na minha lista de comentaristas preferidos. Que nunca ache que eu considero exercício e/ou corrida NULAS no emagrecimento. Mas são ineficientes DEMAIS DEMAIS DEMAIS. É um “remédio” que está MTO longe de ser a primeira opção.

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    • Marcos disse:

      Acredito que entendi o que o Luis disse. Tb acho que comparando com a média da população os atletas de endurance tendem a ser mais saudáveis. Não só mais magros, mais saudáveis mesmo.
      Acho que todo mundo concorda que o exercício tem um papel importante, mas para emagrecimento o que resolveria mesmo é a alimentação. O exercício influencia em muitas coisas e também no emagrecimento, mas o determinante seria a comida. Parece que os exercícios de endurance nem seriam os melhores para emagrecimento. Acho que é isso para a população geral e maioria do que costumamos chamar atletas amadores.
      Agora para atletas mesmo ou aqueles amadores excepcionais as regras são outras. O volume de treinos já não é saudável. A alimentação deve ter regras próprias e, independente do que se coma, acho que não deve ser prazeroso. Além disso, em que pese o balanço calórico não ser uma coisa relevante, acho que a elite sempre deve estar em déficit calórico e isso pode fazer sentido para esses organismos terem desempenhos excepcionais.

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    • Fabio disse:

      correlação passa muito longe de causa!!
      Usando correlação eu posso fazer um estudo e provar que usar porta iphone no braço engorda e faz você correr com pace abaixo da média em uma prova de 10km!

      Pra mim, a história que corrida emagrece é tão bem fundamentada quanto a de que jogar basquete FAZ CRESCER!!

      Fazer um Ironman ou uma maratona muito acima do peso é para muitos poucos loucos… logo poucos desse tipo estarão lá! Seleção natural ou causa-efeito??

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    • adrianapiza disse:

      Atleta de endurance normalmente quer melhorar o rendimento. Só emagrecendo isso já tem grandes chances de isso acontecer. Aí ele procura fazer dieta, mudar a alimentação, sei lá, o fato é que ele faz tudo para perder peso! E melhora. Conheço muita gente nessa linha…. Mas é só relaxar….que mesmo correndo volta a ganhar peso!

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  5. Marcel Rodrigues disse:

    Boa! Excelente!
    Como disse o Dr. Souto, essa carta aberta da Academy of Nutrition and Dietetics é somente o começo, e até 2020 teremos muito mais verdades reveladas.
    #osnutripira

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  6. Nishi disse:

    Se só a atividade física fosse 100% eficiente para redução de peso eu seria magro…

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  7. Daniel disse:

    Sensacional!

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  8. Luis mello disse:

    Talvez o que ocorra é que o esportista tenha mais cuidado com a alimentação e por isso seja mais magro e não pela atividade física em si.

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  9. Marcel Pracidelle disse:

    Putz, empiricamente falando. Me usando como exemplo, o exercício me ajuda na manutenção de peso, pq quando estou em ciclo de treino me preocupo com a alimentação e como bem melhor. Quando estou sem foco de provas e etc, acabo comendo mais do que o normal.

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  10. Marcelo Hideki disse:

    No meu caso atividade física (caminhada rápida e corrida) me ajudou na perda de peso,no final de 2014 estava com 88 quilos e depois de 3 meses caminhando/correndo em média 12 quilometros por dia,consegui chegar a 78.
    Em abril relaxei e já voltei a pesar 80,81…

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  11. Pedro Ayres disse:

    A forma segue a função no biotipo das diferentes atividades físicas. O senso comum é pensar que maratonistas de elite são magrinhos “de tanto correr”. Quando na verdade são magros para não carregar peso extra. Como eles emagrecem é outra história.

    Transferindo para a nova vida comum, o senso comum pensa “fulano pratica exercícios, por isso é magro”.

    Vou contar uma historinha: um conhecido, iniciante no ciclismo, num acesso de sinceridade, confidenciou que era difícil para ele manter uma alta cadência na pedalada porque a barriga balançava. Então, para ter um melhor desempenho ele teria que por algum meio perder peso. Sem contar a imensa vantagem (necessidade!) de ser leve para pedalar montanha acima.

    O exercício ajuda nessa equação como um elemento de estilo de vida. É improvável que o sujeito leve a vidaloca se tem uma rotina de exercícios. Mas nem isso é completamente impossível. Como já citado, são muitas as variáveis, e só nossa ilusão de controle para achar que praticar exercício é peça chave para emagrecer.

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  12. Fabrício disse:

    Valeu, Balu. Seu desabafo é o desabafo de todos nós.

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  13. Luis Oliveira disse:

    Acabei de pensar em outra hipótese: a influencia da amarração do calçado de corrida na eficácio do exercício para perda de peso. Vou correndo escrever o artigo.

    Curtido por 1 pessoa

  14. martinhovneto disse:

    Falando por mim, exercício físico nunca foi garantia de perda de peso. Corrida mesmo, passei 5 meses correndo e não perdi muita coisa. Depois de um ajuste na alimentação perdi 20 kg em 8 meses. (só faltou a foto do antes e depois kkkkkkkkkkk)

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    • Marcelo Hideki disse:

      É lógico que alimentação é muito mais importante que atividade física para perder peso,mas aposto que se tivesse ficado sedentário nesses 5 meses teria engordado.

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  15. […] para escolherem juntos o lado errado. E a mesma regra funciona sobre revistas de corrida quando falam de Nutrição. A quem recorrer? A um profissional? Porém, isso está longe de ser garantia, ainda […]

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  16. Angélica Padilha disse:

    Há uma luz no fim do túnel! Eu como Nutricionista aguardo ansiosamente por órgãos e mais profissionais que se posicionem a favor de reformular todo esse padrão alimentar absurdo que instituíram visando o consumo de altos teores de carboidrato e fazendo todo esse terrorismo que conhecemos contra as gorduras! Acho que estamos caminhado a passo de tartaruga, mas a informação já está aí para quem quiser enxergar!!!

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