A geração da corrida sem precisar correr…

*post automático. Em viagem de férias não sei quando poderei responder ou mesmo liberar comentários “presos”…

Vocês não me verão dizendo o que é ser ou não corredor. Primeiro porque ninguém precisa de alguém para se considerar um. Segundo porque esse é um exercício tão abstrato que não compensa. Basicamente correr é dar um passo atrás do outro (havendo necessariamente uma “fase aérea”, ou seja, sem você tocar o solo). O quanto cada um “precisa” ou deseja correr, é estritamente individual. Mas alguns textos ultimamente me chamaram muito a atenção.

O primeiro é sobre um do The New York Times explicando que corredores de verdade também andam durante uma maratona. Eu não poderia concordar mais! Não há nada na regra que diz que você deva correr para ser um maratonista. Fala apenas em completar a distância dentro de um tempo máximo, ainda que isso machuque os ouvidos dos mais conservadores.

Mas daí veio um estudo explicando que correr os 42km desde o início programando pausas para caminhada reduz as dores pós-prova com um inevitável aumento do tempo final. Veja bem, tudo bem que você tem que provar as coisas por estudos, mas há ainda outra tática para reduzir as dores depois de um domingo com maratona: simplesmente não corrê-la! Por lei você precisa pagar impostos e isso dói. Mas não há lei dizendo que você tem que correr 42km (ou 21km, 15km…)!

Por que correr se podemos hoje ir direto para a festa pós-prova?

Por que correr se podemos hoje ir direto para a festa pós-prova?

Pode parecer difícil de entender aos não-iniciados, mas o desconforto é inerente a esse esporte! A pessoa precisa saber disso desde o princípio! Você pode ir ao parque e correr alguns minutos sem dor, confortavelmente, mas correr 42km exige além de uma resistência “natural”. Esse é o problema quando chego a um terceiro texto que faço questão de citar, falando sobre o uso de maconha entre ultramaratonistas.

Quando queremos fazer algo, arranjamos qualquer motivo ou argumento em nossa cabeça para nos convencer da decisão tomada. Quem quer fumar maconha, vai arranjar qualquer explicação que seja, no caso, uma ultramaratona e os supostos benefícios de fumar essa erva na prática dessa modalidade. Mas não é o consumo que me “incomoda”, afinal, cada um faz o que quiser com seu corpo. Não tenho absolutamente nada contra quem fuma!

O ponto é que assim como quem quer caminhar para ter menos dores após uma prova, há quem ache que fumar seja importante para tirar o desconforto – e veja só – justamente numa especialidade que se diferencia por exigir mais tolerância do atleta ao desconforto. É a geração NEM-NEM da corrida. É uma adaptação do “nem trabalha nem estuda” para a corrida sem sofrimento. O primeiro passo é não treinar muito (cansa), não correr muito (machuca) e por fim tomar algo durante para reduzir o desconforto. É como querer nadar sem se molhar. O próximo passo serão as provas que não precisarão ser corridas…OH ESPERA!

Chego ao quarto e último texto justamente para falar de uma prova de 0km (ZERO) que ganhou destaque no The New York Times. 350 atletas pagaram cerca de R$100 cada com direito a inscrição, número de peito, camiseta, bebida e comida. Novamente os mais tradicionais se enfureceram com essa ideia. Não é para tanto! Há muita corrida hoje que não é muito longe disso, com a diferença que nessa não havia como correr! Muito de uma piada reside justamente em seu fundo de verdade. A corrida não teria chegado hoje a esse ponto? Meu palpite é que a geração viciada em conforto e mimada (e educada) a nunca perder faça minha resposta ser um “infelizmente sim”.

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20 pensamentos sobre “A geração da corrida sem precisar correr…

  1. adolfont disse:

    Que tal 3.14K com direito a torta depois?
    http://piedaypik.itsyourrace.com/event.aspx?id=4812

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  2. martinhovneto disse:

    “Veja bem, tudo bem que você tem que provar as coisas por estudos, mas há ainda outra tática para reduzir as dores depois de um domingo com maratona: simplesmente não corrê-la! Por lei você precisa pagar impostos e isso dói. Mas não há lei dizendo que você tem que correr 42km (ou 21km, 15km…)!”

    Ganhei o dia! Kkkkkkk

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  3. Julio Cesar Kujavski disse:

    Quando eu era ciclista comecei a pegar a época dos mimimi:

    Um dia alguém perguntou num fórum como fazia pra não prejudicar a pintura da bike com os pingos de suor dele.. falei que a melhor maneira seria ele não suar.

    O que eu vejo é que tem muita coisa sobre corrida na rede mas treinar pra valer mesmo é sempre a mesma meia dúzia que treina.
    Até uns mais antigos estão migrando pras ultramaratonas pra não precisar treinar e mesmo assim manterem sua fama de guerreiros.

    Vou é pra pista fazer meus tiros de 400.

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  4. Seguem alguns pitacos:

    – Andar em maratonas: normalmente quem caminha em maratona é como estratégia para conseguir completar. Por outro lado, se corrida é lazer cada um que decida a dor que está disposto a suportar.

    – Maconha em ultramaratonas: a despeito do que digam há sim um viés moralista nesse debate. Ultramaratonistas tomam ibuprofeno em provas há décadas, com o mesmo objetivo de reduzir a dor e isso NUNCA despertou um debate “moral” sobre se isso estaria subvertendo a essência do esporte. Pelo menos tudo que li sobre isso discutia a questão somente pelo ângulo científico, ou seja se isso realmente auxilia a performance, se não prejudica a saúde, etc. Jamais vi alguém dizer ou mesmo insinuar que quem toma anti-inflamatório para ajudar a suportar a dor não é um “corredor de verdade”. Aí quando é a maconha começa esse debate “filosófico”. Por que só com a maconha? Se o problema é reduzir a dor isso não se aplicaria a qualquer droga usada para isso? Se o ultramaratonista tiver dor de cabeça não pode tomar uma aspirina tem suportar a exaqueca ou abandonar a prova?

    – Por fim, pra mim corrida é lazer. Claro, faz bem à saúde mas isso qualquer esporte faz, corro porque gosto, senão. Se é lazer então pra mim não se aplica essa ética protestante do “trabalho como salvação”. Corro o quanto me faz sentir bem.

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    • Pedro Ayres disse:

      Bom ponto sobre o ibuprofeno, Daniel. Por outro lado, a maconha tem também um viés cultural muito forte. Você não vê “ibuprofeno runners” ou “ibuprofeno pride”, já grupos de “weed runners” existem… E aí começa a reação, contra-reação, e tá feita a confusão 🙂 Abraços.

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    • Danilo Balu disse:

      Só tem um adendo… O ibuprofeno é um recurso ilegal. Ainda acho que a maioria o faz mais parecer especial… É só ver a qtide de pangaré que consome. Pior que entre os melhores caras com quem já corri NINGUÉM tomava essas coisas…

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  5. Enio Augusto disse:

    Fico incomodado de ir a uma corrida e ter que caminhar. Até por isso, parei com as maratonas por enquanto. Optei por sofrer nas distâncias mais curtas.

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  6. adolfont disse:

    Achei que você misturou coisas que não tem nada a ver. A corrida de 0Km é uma piada, só isso.

    O método Gallowalk (correr e caminhar) só talvez reduza um pouco as dores pós-maratona. Não as elimina. Parece uma forma inteligente de usar o corpo. Parece também mais inspirada no que os seres humanos deviam fazer no passado nas caçadas de persistência: correr um pouco e descansar. Correr sempre no mesmo ritmo por 3-4 horas é que me parece maluquice, muito artificial. Pode até ser o mais eficiente para conseguir o melhor tempo possível.

    O método Gallowalk segue o princípio da Via Negativa. Em vez de acrescentar algo, retira-se. Corre-se (um pouco, bem pouco mesmo) menos.

    Já a maconha é outra estória. É aquilo que te falei outra vez. Com a maconha (assim como com os Hoka One One e outros maximilalistas) a gente não está seguindo a Via Negativa. Estão acrescentando algo em vez de remover o agressor.

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    • Danilo Balu disse:

      A corrida de 0km é lógico que é uma piada, mas veja os comentários raivosos no link original… Qdo a andar pra fazer uma maratona não vejo problema algum! Conheço o método dele… Mas correr 42km não é algo natural… Só não entendo a ideia de que alguém PRECISE correr uma maratona…

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      • adolfont disse:

        Que não é algo natural eu sei, mas no livro Nascido para Correr o MCDougall sugere que talvez seja semelhante ao que se fazia no passado. Sei não. Teria que voltar no tempo para ter certeza.

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  7. Adriana Piza disse:

    Ibuprofeno, Tylenol….virou coisa normal em corridas mais longas, quase como beber água. Fico impressionada! Faz parte dos comprimidos e cápsulas junto com BCAA, sal, vitaminas antioxidantes…se precisasse mesmo de tudo isso, preferiria não correr.
    Quanto à corrida de 0km, achei genial a idéia. Tem até premiação por faixa etária….aleatória rs!

    Curtido por 1 pessoa

  8. […] atrás quando falei aqui de uma “geração de corredores que não precisa sequer correr”, o Daniel Malaguti fez um comentário felicíssimo argumentando que se maconha é tabu, tomar […]

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  9. […] Semanas atrás falei aqui de um debate de ordem ética sobre se seria justo ultramaratonistas recorrerem ao uso de maconha, substância proibida pela IAAF, para poder correr mais (ou melhor). Conheço quem não faça uma rodagem sem “fumar um”. Sério. E por ser amador, não vejo ABSOLUTAMENTE NADA de errado nisso. Como disse muitíssimo bem o Daniel Malaguti, “se corrida é lazer, cada um que decida a dor que está disposto a suportar”. Porém, é moralmente justo fazer uso de um recurso proibido? É justo implicar com a maconha quando tantos outros fazem uso de anti-inflamatórios ou anabólicos? Não falta treinador em publicação de corrida defendendo o uso de Advil programado durante uma maratona. Uma irresponsabilidade! E você não verá nunca o desnecessário CREF falando algo contra, eles só perdem tempo apenas com o inútil que prejudica o bolso do conselho. Por fim, o Pedro Ayres saiu-se com um comentário muito feliz: a maconha tem um viés cultural muito forte, pois você não vê “ibuprofeno runners” ou “ibuprofeno pride”. Mas sobra espaço na maior e melhor publicação de corrida do planeta falando sobre maconha. Aqui a matéria que me fez escrever esse parágrafo. […]

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