Sobre Nutrição e Falácias – parte 7

OU SOBRE O SAL COMO FALSO VILÃO DA HIPERTENSÃO

*publicado originalmente no Webrun.

O manual do “bom Nutricionista” diz que devemos consumir sal com moderação. Para entendermos se estamos exagerando ou não com a dose do sal, é importante primeiro olhar sobre a recomendação para um adulto saudável. A atual recomendação é de 2.300mg diárias de sódio (cerca de 6g de sal). Mas a absoluta maioria de americanos e brasileiros ultrapassa em muito este valor. Médicos e Nutricionistas correm para dizer que este excesso é nocivo e pode causar hipertensão. Mas… Será mesmo? Qual a base para esta recomendação?

O United States Department of Agriculture (USDA), o Centers for Disease Control (CDC) e a American Heart Association (AHA), órgãos americanos que hoje servem de base para diretrizes nos EUA e no Brasil, alegam que ultrapassar os 2.300mg diários de sódio é perigoso porque aumenta a pressão arterial e pode levar a um maior risco cardíaco e renal.

Para usar assim um número tão “quebrado”, deveriam existir evidências, mas elas não existem, essa meta foi inventada sem fundamento. Mais do que isso, para idosos (acima de 50 anos), diabéticos e hipertensos, o valor é desumanamente mais rigoroso, 1.500mg. Mas vamos aqui nos concentrar nos adultos saudáveis.

É um fato que não há quem negue: comer sal, por causa do sódio, tem um efeito agudo (imediato e momentâneo) no aumento da pressão. Isso porque ao ingerir sal, o corpo retém mais água para compensar o aumento da concentração de sódio no sangue. Por isso que alimentos salgados dão sede, é uma resposta natural, é a homeostase “cuidando” do equilíbrio do corpo. O resultado desta retenção líquida é um aumento da pressão que cairá apenas quando os rins conseguirem eliminar o sal e a água. Ou seja, é uma hipertensão momentânea.

E se perdermos o foco do que causa mesmo a hipertensão?

E se perdermos o foco do que causa mesmo a hipertensão?

Porém, o desafio da Ciência é descobrir até onde esse efeito agudo do sal/sódio vira um estado crônico com suas consequências sérias. Por enquanto isso é puro chute, é uma enorme especulação sem evidência. E base de sustentação para se combater isso é apenas fé, é apenas achismo, é uma lógica nada científica e apenas puritana, aquela que estabelece (e deseja!) com um pé na ideia do pecado da gula por um alimento, no caso o sal, como as causas de um male. É o profissional da saúde apelando a Deus quando não tem resposta a um problema complexo.

Muito pior e muito mais grave do que isso é que ao ficarmos focando toda nossa atenção no sal/sódio como causador de graves problemas como a hipertensão, corremos o enorme risco de deixar passar o verdadeiro “vilão” causador do problema.

Não deixa de ser meio decepcionante saber da origem do veredito do sal. Em 1940, o médico alemão Wallace Kempner da Duke University desenvolveu a “dieta do arroz” que convenceu uma geração de médicos que espalharam essa tese. Kempner criou uma dieta para tratar hipertensos. Essa dieta restringia fortemente o sal e funcionou. Porém, Kempner também mexia com a quantidade de inúmeros outros nutrientes, entre eles, a dieta continha altas quantidades de Potássio, um sabido nutriente que influencia positivamente na redução da hipertensão. E no caso quando a dieta não funcionava, usava-se o argumento tão usado quando não se sabe a resposta de um problema: terceirizam a culpa. Ou seja, depois de cortado o sal, se a pressão não caía, a culpa era do paciente que não teria seguido corretamente a dieta.

Pois o debate em torno do sal ser um mero coadjuvante voltou à tona por causa de um estudo do Institute of Medicine que concluiu não haver evidências que “justifiquem as recomendações para reduzir o consumo diário de sódio para os 1.500mg”. Mais do que isso, um estudo italiano tinha encontrado que uma grande redução de sódio pode inclusive ser problemática para a saúde de algumas pessoas, tal qual um estudo de 1972 no The New England Journal of Medicine. Ou seja, não sabemos qual o excesso que faz mal, mas sabemos que pouco sal definitivamente é bem perigoso.

Outro argumento de apoio para comermos pouco sal foi o fato de haver populações que consomem muito pouco sal que praticamente não sofrem de hipertensão. Mas de novo, esses mesmos povos não consomem muita coisa, como açúcar, por exemplo. Mas optaram pela saída fácil para um problema que não sabem a resposta: “culpar” o sal/sódio. Outra argumentação ainda é um estudo que gerou sódio-sensibilidade em ratos que consumiam muito sal. Porém, esses ratos comiam o equivalente a 500g de sal para um humano adulto!

Infelizmente o que era hipótese virou fato, mesmo sem provas. A NHI (EUA) investiu toneladas de dinheiro em estudos para reforçar a hipótese. Como nada de mais conclusivo surgiu, tinham que justificar de alguma maneira seu posicionamento rigoroso com o alimento. Então se apoiaram em um único estudo. O DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension. Ou intervenções nutricionais para interromper a hipertensão) feito em 2001 e que durou apenas 30 dias com somente 412 indivíduos que observou uma pequena queda da pressão arterial no grupo que reduziu o sal. Porém, ela foi pequena, modesta e em nada descobriu sobre seus efeitos na hipertensão ou nos efeitos crônicos na mortalidade ou risco cardíaco ao longo prazo. Nada.

Como é bem típico na Nutrição, as diretrizes quanto ao consumo de sal parecem suplantar a ciência, parece ser vítima de má interpretação de dados. Em maio de 1998, por exemplo, uma análise da Universidade de Copenhagen no Journal of the American Medical Association (JAMA) com 114 estudos promovendo a redução do consumo de sal arrancou a seguinte declaração do editor do JAMA quando os resultados foram pífios: pode-se dizer sem dúvida alguma que a atual redução recomendada de sal vai muito além dos fatos científicos.

Estou falando tudo isso porque um novo artigo reacendeu o debate dizendo que o açúcar tem um peso muito maior que o sal na hipertensão crônica. Funciona mais ou menos assim, a redução do consumo de açúcar e carboidratos gera uma perda de água por causa da queda inevitável dos níveis de insulina quando restringimos esses alimentos. Assim, os rins acabam liberando sódio e também água, reduzindo a pressão. Isso é um fato, não é chute.

Eu já havia dito isso no Webrun quase três anos atrás, àquela época eu não era o único a falar que é o açúcar e não o sal um grande vilão da hipertensão, pois é o hormônio insulina quem ajuda cronicamente na retenção de líquidos enquanto o sal tem efeito “apenas” agudo. Ou seja, se você tem rins saudáveis e quer evitar o pior, atente ao pó branco. Mas o pó é doce!

Mas quando disse aquilo, houve quem não gostasse. Mas eu entendo. São 40 anos buscando evidências contra o sal sem sucesso. Há 40 anos “sabem” quem é que causa hipertensão, mas estudo atrás de estudo não traz a resposta. Quando elas em um ou outro estudo curto parecem existir, reforçam a mensagem de papel de vilão. Quando elas falham, como em tantos outros, ficam perdidas em meio ao barulho de quem só ouve o que quer. Ou seja, cortar o sal é uma recomendação que virou sabedoria popular de quem quer ganhar a discussão no grito e baseado em uma antigo ideia lá atrás.

Se o seu Médico ou Nutricionista insiste que você vai virar hipertenso por comer muito sal, não importa o que você tente falar, se ele já tem um veredito, nunca irá escutar. Está mais do que na hora de tirar o debate sobre sal/hipertensão da idade média e trazer para o campo da ciência.

No próximo texto eu vou falar de uma das maiores barbeiragens da Nutrição: a pirâmide alimentar.

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62 pensamentos sobre “Sobre Nutrição e Falácias – parte 7

  1. […] o colesterol e nos apoiarmos num consumo um tanto perigoso do carboidrato. Continuei mostrando a fraqueza de nossa abordagem com o consumo de sal, passando pela construção de caráter completamente político e econômico da pirâmide alimentar […]

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  2. […] é que o estudo acompanhou 5.000 por 10 anos, mas aos olhos de uns parece pouco. Você sabia que a diretriz nutricional de consumo de Sal foi estabelecida em um estudo com 412 pessoas por 30 dias? E […]

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  3. Fábio P disse:

    Olá Balu, você é genial cara, estou gostando muito dos seus textos. Sou low carb a um ano e crossfiter q treina em jejum e estou muito bem obrigado.

    Você já conhece o blog Lipidofobia? Há uma ótima postagem lá sobre o sal: http://lipidofobia.blogspot.com.br/2015/01/o-sal-pode-proteger-saude.html

    Grande abraço!

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  6. […] o colesterol e nos apoiarmos num consumo um tanto perigoso do carboidrato. Continuei mostrando a fraqueza de nossa abordagem com o consumo de sal, passando pela construção de caráter completamente político e econômico da pirâmide alimentar […]

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  7. […] à mesa, mostra do seu total desconhecimento do que realmente afeta negativamente nossa Saúde. *Tempo atrás eu publiquei aqui a fragilíssima tese sobre a qual se sustentam hoje as recomendações de Sal. Basicamente ela se […]

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  8. […] PARTE 7: a ciência por trás da recomendação do sal. […]

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  9. […] como as que dizem respeito sequer à eficácia e, talvez mais importante, segurança. Exemplo? Consumo de Sal, balanço calórico, consumo de QUALQUER nutriente, razões que levam ao emagrecimento (ou […]

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