No rastro da mais acirrada eleição presidencial brasileira da história, o The Washington Post perguntou: será que como eleitores sabemos diferenciar o que é sorte, acaso ou competência?
Não quero nem vou entrar no debate político, mas será que o eleitor consegue reconhecer a enorme sorte que Lula teve com o cenário econômico mundial em sua 1ª gestão enquanto crescíamos menos que a média? Será que os eleitores de FHC sabem diferenciar o que é pragmatismo econômico do que é sorte no combate de uma hiperinflação que caía “coincidentemente” em inúmeros países ao redor do mundo?
Vamos ser um pouquinho menores e introspectivos no questionamento: será que sabemos diferenciar sorte (genética), acaso e competência (mérito, dedicação e disciplina nos treinos) na nossa corrida? Será?
Já fui um fã ferrenho da meritocracia. Abandonei esse entorpecente perigoso mais precisamente quando li “O Andar do Bêbado”, um dos livros mais incríveis que já li. Basicamente o mundo parece que seria um lugar muito mais justo se ela funcionasse, mas é um tanto quanto fácil para nós defendermos isso agora que já subimos a escada e queremos dar um pontapé nela, pois se você está lendo este parágrafo é bem provável que você tenha uma sorte muito maior do que a média da população mundial. Muito mais sorte!
Pois é meio que natural ficarmos na defensiva e acharmos que aquele “tempaço” que fizemos naquela prova X é fruto de muitas noites encurtadas para podermos treinar (madrugada ou de noite), de muitos treinos feitos vencendo uma preguiça enorme. O problema é que tendemos a ignorar o que ganhamos de presente o que nos caiu no colo, o que não vem/veio com mérito algum. Nos vangloriamos do que conquistamos enquanto minimizamos o que nos deram de fábrica. Nesse sentido, a corrida é tão injusta quanto o futebol, sem essa de falar que é o esporte mais justo. Não é. Você muito provavelmente não corre mais ou menos que Fulano porque se dedica mais.
Um texto bacana enviado pelo amigo PC lá de Buenos Aires resume um caso clássico, o das irmãs húngaras Polgar, transformadas em estrelas enxadristas por um crente da supremacia do esforço sobre o talento natural que treinou as garotas ao extremo até elas virarem um sucesso absoluto no xadrez. Mas para cada caso das irmãs tenistas Williams, espremidas ao último para virar um caso de sucesso, existem outros inúmeros que se perdem pelo caminho, como explica o meu amigo Rodolfo Araújo em um ótimo e curto vídeo sobre o Viés do Sobrevivente. As irmãs Polgar e as Williams podem ser só uma materialização do Golfinho Benevolente. Ou seja, você olha o exemplo de um golfinho bondoso salvando náufragos achando que é sempre assim quando na verdade – não sabemos! – os golfinhos seriam em sua maioria malevolentes sanguinários afogando sobreviventes sem que saibamos desses casos, afinal, eles não viram artigos, livros, nem documentários.
Mas e o que isso tem a ver com a sua corrida? Não é pouca coisa, como indiretamente nos mostram estudos do famoso psicólogo americano Skinner. Em um texto excelente também do Rodolfo Araújo, temos que em experimentos com pombos, eles tinham comida liberada de forma aleatória que faziam as aves criarem hábitos baseados em recompensas irregulares, hábitos esses difíceis de serem quebrados porque as recompensas intermitentes transformam gesto em compulsão porque, sem saber da aleatoriedade, elas acreditavam que alguma atitude delas havia liberado a comida e passava, assim, a repetir aquela dança específica na esperança da repetição da ocorrência.
Se o pombo girasse o pescoço para a direita no exato momento que a comida aparecesse, ele imaginava que a comida havia aparecido graças a isso e, assim, passava a girar a cabeça para a direita freneticamente.
“Mas somos muito mais espertos e inteligentes que um pombo”. Sim! Com certeza! Mas o gesto do pombo parece a dança daquela pessoa corredora que dá exatos 5 tiros de 1 volta (nem mais nem menos!) porque foi assim que funcionou na última vez que teve a recompensa, ou seja, que conseguiu um ótimo tempo nos 10km. O suplemento que ela toma é sempre o da marca Y porque foi quando tomava esse que veio o recorde na Meia Maratona. E o último longão tem 32km e não 31km porque… bom, você entendeu o ponto.
As coisas que fazemos na corrida é muito baseado na tentativa e erro. Mas quantas maratonas conseguimos correr realmente forte e treinando muito? Nossa amostragem na vida acaba sendo muito baixa e as variáveis, inúmeras e incontáveis. Mas queremos sempre ter controle de tudo, isso é muito humano. Mais do que isso, queremos tomar pra nós méritos ignorando que muito, mas muito, é fruto apenas do acaso que ou desconhecemos ou, talvez pior, tentamos enxergar um padrão onde ele sequer existe. E isso de sabermos tão pouco da corrida não deixa de ser fascinante. Mas só é assim quando somos humildes o suficiente para aceitar que sabemos muito pouco, que temos controle de quase nada e que, ainda assim, não temos IDEIA de qual será o resultado da equação.
*Ah! Sabe aquele “tempaço” que escrevi lá atrás? Foi entre aspas porque você e seus pais podem até achar um tempaço. Mas a menos que você faça dinheiro correndo, esse seu tempaço é um nada. É disso que falo quando falo de humildade, de sabermos pouco e sabermos que somos pequenos, bem pequenos, menores que um pombo.