De Nutrição e do porquê não acompanho

Existe basicamente um único motivo pelo qual eu não leio nada que envolva Nutrição nas publicações de corrida brasileiras: quem escreve nelas em sua absoluta maioria (não totalidade) é ruim, mas muito ruim.

Nesse final de semana fui ler um relatório de circulação fechada de um banco internacional que me chegou pelas mãos de um amigo. Ele queria minha opinião. O relatório era extenso e tratava de obesidade, diabetes e saúde. O texto, incrivelmente impecável e rigoroso na análise, era simples e direto: a culpa é do açúcar e/ou do carboidrato. A palavra “gordura” não é sequer citada.

Alguns dos meus amigos mais próximos e mais inteligentes fizeram ciências exatas. Outra semelhança entre eles é que vivem a realidade de uma competição de um mercado feroz, mas muito mais do que isso, além da enorme responsabilidade em suas costas, eles têm que apresentar resultados. Mais do que isso. Conversando com eles, eu posso dizer aqui tranquilamente que consigo expor mais as ideias por trás do emagrecimento pela opção da redução de carboidrato (lowcarb) do que consegui até hoje com profissionais de Saúde.

Quase todos eles têm só uma coisa na cabeça. E te adianto, não presta.

Quase todos têm só uma coisa na cabeça. E adianto: não presta.

Primeiro porque a sobrevivência desses meus colegas não depende disso. Ou seja, é quase uma arte você querer que um Treinador entenda e aceite a ideia verdadeira de que o esporte é uma péssima e ineficiente ferramenta de perda ou controle de peso se ele também vive financeiramente dessa ideia sem provas. E segundo porque eles vêm sem o vício de anos de professores ensinando tanta coisa desatualizada e equivocada nas faculdades de Educação Física e Nutrição.

Mas… será?!

O que você faria se alguém todo intitulado viesse dar recomendações e, mais do que isso, cobrasse (muitas vezes caro) pela orientação? Seguiria, certo? Pois é. No meu caso, eu faço o contrário, minha chance de acerto sempre aumenta consideravelmente. Vamos dar exemplos. Vamos começar com o pior exemplo que me mandaram recentemente. No Jornal da Corrida postaram semana passada um texto ruim ao extremo, mas tão ruim que não dá nem pra forrar a gaiola do periquito porque não é impresso. Minha recomendação: faça tudo ao contrário do que manda nele a Tania Abreu, é mais seguro.

Aqui vou abrir um parênteses. A tal da pós-graduação lato-sensu, que eu chamo de consórcio de diploma. Nunca confie nesse título! Ele é perigoso, engana, dá uma falsa confiança e mais importante: são cursos horrorosos. E aí voltamos à questão do corporativismo. A pessoa intitulada nesses cursos (tem até na escola Paulista de Medicina!) que são ruins de doer, ganham um ar de que ela virou especialista, acima da média de seus pares e não que tenha pago pelo pedaço de papel. Fosse eu rico, provaria meu ponto como um grande amigo que está se formando em Direito (presencial) em uma faculdade conceituada em SP mesmo morando no Aterro do Flamengo. Voltemos…

Quando entrei na Nutrição (FSP-USP) depois de me formar em Esporte eu ficava furioso quando diziam lá que Treinador não entende de Nutrição. “Como não?! Qualquer treinador entende de Nutrição”! Será? Não! Treinador não entende nada de Nutrição. Pior: quem dá aulas geralmente também não entende de Nutrição Humana, no máximo de Nutrição Celular. *aqui uma dica: treinador, quando uma revista pedir dicas, se recuse! Você vai passar “carão”.

Mas se treinador não sabe, Médico deve saber, né? O mais engraçado nessa relação com médico, é que ele é como um administrador, ele vira especialista em tudo, se estiver de jaleco, então, vira um Tudólogo. Veja o Gustavo Magliocca, por exemplo, ele até acha que consegue enxergar níveis de desidratação pelo suor na roupa do corredor… ou seja, alguns médicos acham que fazer Medicina faz de você um especialista. Vejam as recomendações abaixo que tirei da Revista Contra-Relógio (CR) do Josivan Lima, por exemplo.

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Ou seja, simplifique o complexo, mas não se esqueça de assinar que é médico. É o mesmo que um veterinário dizer que entende de “Anatomia de Unicórnio”. Ele saberia anatomia de equino, então por aproximação… Ou então, é como ler sobre Ciências Ocultas, montar a cavalo e achar que pode dissecar a Uni do Caverna do Dragão. Nessa lógica, se você for mecânico e fã de Star Wars, então vira especialista em Disco Voador.

Antes IMG-20140915-WA0008de escrever esse texto, peguei umas revistas velhas no escritório. Está lá nas páginas 76 e 77 da mesma CR de Fevereiro desse ano um texto estranho sobre suplementação catabólica da Andreia Torres. É só simplificar o complexo! Mas também envolve muita coragem… e igualmente ruins são as recomendações na Runner´s World de abril, por exemplo. Ou seja, transforme a Nutrição numa arte e cobre. Caro, lógico. O problema é que nunca tive muito estômago pra isso…

 

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Por último, tem os clássicos da Revista O2. Separei 3 textos que são o puro do creme do milho… aqui o Rafael Brasília fala do milagre de aumentar o metabolismo pra perder peso. Aqui o Newton Nunes transforma a sede e a hidratação em uma ciência complexa como a Física Quântica. Neste outro, a Bianca Giometti faz o mesmo, nos ensina a não morrer de sede.

Por que estou fazendo isso? Primeiro porque eu quero, e segundo porque me sinto à vontade já que não clinico nem vendo suplementos. E ainda porque se é público, pode ser comentado. Mas o maior motivo é que me incomoda demais tanta gente escrevendo tanta besteira sem ser questionada.

Sabe, venho conversando há um tempinho com o Sergio Rocha que insiste que eu escreva sobre Nutrição no Corrida no Ar. É um risco que meu amigo Alexandre Koda já correu porque tenho um espaço no Webrun que quase não “uso” porque não consigo enrolar como tanta gente, eu não consigo transformar fome e sede em commodity. Mas eu não sou melhor por causa isso! Não sou sequer mais honesto! É apenas que minha renda não vem disso. A deles vêm, por isso alguns vão ficar bravos. Não deveriam. Errar feio e é do jogo. Quer prova?

Bastaria um e-mail meu e todas as besteiras que eu já disse no Webrun estariam fora do ar. E isto seria desonesto. Todos os meus textos sobre Nutrição com atrocidades ditas logo após a faculdade sobre desidratação e emagrecimento, estão lá e não vão sair! Quero ter aquilo sempre disponível pra mim pra saber como é caro o preço de não contestar o que algum intitulado via consórcio vem te empurrar. No final de 2013 escrevi uma carta “me desculpando” e não vai passar disso, não vou apagar. É o meu jeito de manter os meus pés no chão, nem me levando a sério demais e aprendendo a questionar que o que alguém intitulado ou de avental vem falar nem sempre é a verdade. É o meu jeito de lembrar sempre de questionar tudo.

Se eu vou escrever no Corrida no Ar sobre Nutrição? É bem provável que sim. E quero escrever ponto a ponto o porquê acho e é tão ruim e tão errado o que foi escrito pelos citados aqui.

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37 pensamentos sobre “De Nutrição e do porquê não acompanho

  1. Paulo Roda disse:

    Concordo com você, não acredito em nada destas besteiras.
    Sou corredor veterano, e já vi tanto especialista falar merda que desisti até de assinar revistas de corrida.

    E parabéns pelo direto de direita na cara destes falastrões que não entendem nada.

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  2. Ótimo texto. Aguardo a coluna no Corrida no Ar. Vou fazer questão de ler.

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  3. JC Santos disse:

    Parabéns pela coragem. Desejo toda a paciência do mundo par lidar com o contra-ataque do corporativismo blá-blá-blá.

    A mudança radical do que conhecemos como ciência nutricional, que esperava que fosse demorar 10 anos para acontecer, se aproxima rapidamente. Talvez não leve nem cinco.

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  4. Parabéns, Balu! Aqueles que te conhecem sabem que você não tem preguiça de correr atrás do conhecimento e da evolução constante!! Essa é uma grande virtude!
    Abraços!
    Edu

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  5. […] dia depois de escrever o texto falando sobre o porquê não leio absolutamente NADA de Nutrição Esportiva nas publicações de corrida brasileiras (basicamente porque são […]

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  6. […] Eu já escrevi aqui que não leio muito o que sai nas especializadas brasileiras. O motivo é simples: a maioria dos textos ou é conceitualmente ruim de doer ou parecem ter sido escritos com uma preguiça desanimadora. Mas eu também já disse aos meus: a Contra Relógio (CR) é a melhor revista de corrida que temos. Não que eu a leia regularmente, eu só tento acompanhar mesmo a Runner´s World americana. Só. Mas aí recebi um texto bisonho da CR, justo nela… Poxa, Tomaz Lourenço… mas para ser justo com o Lourenço, comprei a edição para ler enquanto a namorada agonizava na cadeira do dentista. […]

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