A Passada Perfeita*

Em umas trocas de e-mails com o Helio Shiino recebi alguns links interessantes de biomecânica e desempenho na corrida. Gosto muito de Biomecânica, mas tenho pavor da nossa pretensão de achar que, seja como Treinador ou como Fisioterapeuta, consigamos fazer grandes intervenções pontuais quando detectamos algo como sendo falho em um atleta. Não precisa ser grande treinador para perceber que alguém “corre sentado”, que não “eleva os joelhos” ou “não traz o calcanhar”. Mas como consertar isso?

Quem acha que técnica de corrida não é importante sempre se atropela pra tentar dizer que Emil Zatopek corria “feio”, mas não consegue entender que o tcheco poderia correr mais se tivesse uma melhor Economia de Corrida, um indicativo de desempenho muito mais útil do que o (inútil) VO2máx, que foi a tara de fisiologistas e treinadores por décadas. O desafio é que o corpo e suas articulações agem de modo complexamente interativo, complexo, interligado. Quem acha que apenas fortalecendo um músculo resolve-se uma fraqueza, ignora ou finge ignorar que isso não trará mais interferências em toda a cadeia responsável pelo movimento.

how-to-change-run-form-475x250Por isso que duas análises que ficaram famosinhas são legais, mas pra mim dão sono. A primeira explica as diferenças de Usain Bolt para os demais. Quando você congela imagens e vai medindo ângulos tentando explicar a supremacia do jamaicano é como que se tentasse dizer que ao abrir mais a perna, você também poderia correr abaixo dos 10 segundos. Essas características do velocista estão mais para consequência do que para causa de seus recordes. É o mesmo princípio deste outro vídeo explicando como baixar das duas horas na maratona. A análise é boa? É muito cuidadosa, mas ela de novo confunde causa e consequência! Se Bolt tem 2,85m de amplitude de passada nos 100m, não adianta achar que aos saltos seremos tão velozes quanto ele. Na verdade o jamaicano é possuidor de um grupo de valências que o permite fazer isso, e não o contrário.

Por isso também que não dei muita atenção a esta análise biomecânica em vídeo de corredoras profissionais em Boston. Tenho certa resistência a achar que uma câmera e pontos marcados no olhômetro em apenas uma única passada dentro dos 42km revele muita coisa de forma precisa e confiável. Muito longe de eu achar que técnica não seja importante! É MUITO importante. Mas sempre que simplificamos algo tão complexo, erramos rudes, erramos feio. Você muda um ponto e mexe em inúmeros outros. Um vídeo excelente da Dra. Sandra Shefelbine é ótimo porque didático acerca de toda essa complexidade. E no alto da sua humildade sua melhor frase é: we don’t understand most of how it works.

Enfim, leve muito a sério o peso de como você corre no seu desempenho, mas não há solução simples em sistemas complexos.

*se gosta do tema, recomendo este espetacular texto da The New Yorker sobre o treinador Alberto Salazar – do qual roubei o título – e seu perfeccionismo em alterar a técnica dos atletas.

Good-Running-Form

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21 pensamentos sobre “A Passada Perfeita*

  1. “we don’t understand most of how it works.” Perfeito.

    Você não acha que isto se aplica também a treinamento?
    Claro que existem algumas coisas que são gerais, mas quanto ao detalhes, me parece que cada um que sugere treinamentos dá suas dicas sem que se saiba muito sobre a efetividade daquilo. Um exemplo? Yasso’s 800 http://www.runnersworld.com/race-training/yasso-800s

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    • Danilo Balu disse:

      Entendo seu pto, mas acho que o Yasso’s 800 não é o melhor exemplo porque até ele sabe que houve uma gde e feliz coincidência. Mas há uma enorme confusão ou sobrevalorização de métodos de treinamento em indivíduos mto diferentes… Ou seja, pra MUITA gente qq porcaria de treino (mal) planificado traria praticamente as mesmas melhoras porque essa pessoa responde bem a quase qq qlide de estímulo.

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  2. carolina disse:

    Cada vez que entro aqui saio com mais dúvidas. E isso é bom. hehehehe

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  3. Claudio disse:

    Prezado Balu,

    qual sua opinião às intervenções sobre alteração da frequência do passo? A orientação é o aumento da frequência mantendo-se a velocidade. Isso vem sendo pesquisado em termos de sobrecarga biomecânica, com resultados encorajadores em termos de sobrecarga mecânica articular e muscular. O método é muito simples e, aparentemente, traz resultados (rápidos).

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    • Danilo Balu disse:

      É. .. não tem resposta simples… a ideia é que qdo partirmos pro minimalismo damos mais passos com menos carga. É “fácil” a pessoa fazer isso qdo tem menos estrutura no calçado, mas como fazer qdo ela insiste com um tênis acolchoado de 400g? Hora ou outra ela tem aquela corrida passiva, um pancadão. Eu ainda ACHO que essa de dar mais passos é bom, mas teria que ser necessariamente com um calçado sem mta estrutura.

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    • Claudio disse:

      Desculpe, não entendi a resposta. Pelo que sei estamos conversando sobre corredores, correto?

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    • Claudio disse:

      Correto, mas meio fora do tema. Esses estudos visam diminuição de dor fantasma via reorganização cortical. Estão em paralelo com uma série de estudos que tratam a dor como um problema muito mais central (SNC) que somente periférico (dano do tecido).

      A utilização do biofeedback (pouco prática em clínica) ou do espelho+verbalização são práticas feitas justamente para que o atleta mude seu gesto da corrida. O que ele consegue e, vinculado a isso, consegue também uma diminuição significativa das dores.

      São estudos clínicos, mas que mostram que é possível alterar o gesto do corredor e manter essa melhora posteriormente.

      Saudações.

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  4. Luis Oliveira disse:

    Balu, já te falei de um livro antigo, mas que fez minha cabeça quando, no século passado, eu dava aula de tênis pra descolar o $ do final de semana, o “The Inner Game of Tennis”. Basicamente ele falava que todos sabemos intuitivamente jogar tenis apenas por observar alguém que sabe jogar tênis. Seu corpo é perfeitamente capaz de aprender e repetir, desde que sua mente saia da frente e pare de ser “mala”.

    Meu trabalho como professor era distrair a parte consciente, enquanto o corpo jogava tênis. E era relativamente fácil. Eu mandava o cara tentar ver as linhas brancas na bola e, como por mágica, ele começava a acertar. Lógico que ele parava de se preocupar com a posição do pé, a cabeça da raquete, e todos os outros detalhes sem importância que ele havia ouvido a vida toda. Funcionava muito.

    Advinha minha estratégia para melhorar a técnica de corrida?

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  5. Nishi disse:

    Pois é justamente porque não entendemos nada é que continuamos querendo entender tudo. Nada de errado nisso. O pobrema é chegar precocemente a uma conclusão definitiva como muita gente faz, pensando no $$ da solução mágica, ou nos louros da fama.

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  6. […] The Guardian um texto bacana explicando o porquê a técnica de corrida importa. Assim como falei aqui na 2ª feira, interessante porque sabe que é importante, complexa e de MUITO difícil ajuste ou […]

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  7. Alexandre disse:

    Balu, o que acha dos testes de pisada? O tênis para pisada pronada influencia? Um ortopedista me falou que tenho que fazer uma palmilha com elementos para corrigir a postura. Mas é bem caro. fico com medo de ser charlatanismo.

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    • Danilo Balu disse:

      Como marketing é ótimo, impressiona e ainda reduz a dúvida do comprador sobre qual dos 30 modelos da marca X ele deve comprar. Agora ele tem só que escolher entre uns 3…
      Como ferramenta técnica é um lixo, serve pra nada. Um engodo puro.
      Palmilha serve pra algo? Talvez sirva. Pra uma minoria absoluta. Sou absolutamente contra por natureza. É MUITO otimismo, é MUITA arrogância que uma palmilha resolva qq problema. Se o cara ainda tem parceiro comercial, não é somente os 2, é conflito grosso de interesse ainda.

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  8. […] biomecânica de profissional usando câmeras não faz muito o meu feitio, já escrevi aqui de como não se deve simplificar o complexo. Em todo caso, fique aqui com uma análise com alguns dos atletas que correram em Nova Iorque dias […]

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