O problema não é estar errado… é querer “estar certo”.

Imagine um problema complexo, indesejável, de difícil solução e que aflige muitos. Eis que alguém vem e propõe uma solução complicada, cara e com explicações cheias de tecnicismos. Desde que me vi viciado lendo nosso comportamento humano tão irracional em livros de Economia Comportamental, uma das coisas que mais encanta é a quantidade enorme de vezes que fomos vítimas desse mesmo exemplo. Vai da engenharia espacial, passando pela artroscopia no joelho à venda de bombons. A solução parece estar sempre no caro e no complexo.

Exatamente um dia depois de revisitar mais uma vez uma palestra de um dos meus autores preferidos, o genial Steven Levitt dissecando a irracionalidade da obrigatoriedade das cadeirinhas infantis em carros mundo afora, que parei para ler um texto da ótima Maria Konnikova na The New Yorker, seguindo dica da Adriana Piza.

O histórico das ciências da saúde é repleto de exemplos desastrosos de como os que nos deveriam orientar optaram por decisões vergonhosamente equivocadas. A nossa loucura é tanta que atropela a exigência da evidência prática optando pelo que parece mais lógico aos olhos. Como disse certa vez Carl Sagan: “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar“.

Um dos hábitos mais caros ao homem é a dificuldade de aceitarmos ou convivermos bem com o fato de termos estado tão errados por um longo tempo em assuntos que achávamos dominar havia muito. Acontece com qualquer um de nós. Outro hábito caro é a resistência em acreditar que a solução pode ser mais simples e não exigir muito. O genial Nassin Taleb diz que os maiores avanços que a tecnologia trouxe está onde seu funcionamento é invisível. Nada que a natureza talhou em milênios se aperfeiçoa com um pedaço de material sintético.

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Visto dessa forma, é natural que achemos que umas cápsulas de BCAA, meias de compressão e pedaços de borrachas de densidade especial sejam mais que úteis, sejam essenciais. Rotinas e orientações que vêm por décadas passam a ser o que são, rotina, sem que ninguém conteste mesmo carecendo de comprovações. Dois sábados atrás em uma corrida, alguém chegou ao meu lado e disse: não ouça o Balu, porque ele diz que aquecer é bobagem. É também por isso que tenho pavor de ser chamado de polêmico. Atribuirão a mim o que eu nunca disse.

Enfim, no texto da The New Yorker, Konnikova diz em tom de ironia que não queremos estar certos de verdade. Estamos mais interessados em ganhar o debate, mesmo sem ter razão. E uma vez que nossa teoria não faz total sentido, formulamos as justificativas possíveis em nossa cabeça pra sustentar nossa posição, nos agarramos inicialmente na escolha errada.

Corro o risco quando falo aqui que não consumo suplemento de carboidrato, meia de compressão, BCAA ou que não alongo. Já “consumi” muito disso tudo. Mas eu queria estar certo “de verdade”, mesmo que isso custasse admitir que advoguei por anos fortemente pro outro lado ou que compreendesse que o mais simples e mais barato pode mesmo ser o melhor.

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12 pensamentos sobre “O problema não é estar errado… é querer “estar certo”.

  1. adolfont disse:

    Como é que é? Gastei 100 dólares numa meia de compressão e agora você vem me dizer que não funciona? Você está errado! 🙂

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  2. A mesmice cansa…….ainda bem que temos pessoas que pensam diferente…..somente assim o mundo evolui. Abç

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  3. Balu, eu gostaria que vc definisse alguns pontos. Sobre BCAA, não tenho embasamento algum para discordar, então tendo a concordar. Mas quanto a meias de compressão e alongamentos, vc está falando em relação à melhora de performance na corrida, certo? Porque, embora não saiba dizer quais são os estudos, tenho lido vários artigos — que garantem estar baseados nessas pesquisas — alegando que a melhoria na recuperação muscular graças à melhor circulação é comprovada cientificamente. E quanto ao alongamento, acho que ninguém discorda que uma pessoa flexível está em melhor forma do que uma encurtada. Ou estou errado? Abs

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    • Julio Cesar Kujavski disse:

      Uma pessoa encurtada está em melhor forma para a corrida de longa distância, chama-se “economia de corrida”. Um corredor com menos alongamento será mais econômico em corridas de fundo, portanto, melhor. Mas para a saúde de um modo geral é melhor não ser encurtado.

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      • Guilherme disse:

        Nossa, desde quando uma pessoa encurtada tem uma performance melhor?? Gostaria de ver esse artigo, pois se for pensar na fisiologia uma pessoa encurtada o sarcômero tem um encurtamento (tamanho normal é de 2,2 micrômetros, e indivíduos encurtados é de 1,8) que pode levar a uma perda de rendimento de 20%.
        Não consigo ver uma pessoa com encurtamento levando vantagem!!
        Fora toda a parte de restrição de amplitude de ADM em qualquer atividade.

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      • Danilo Balu disse:

        Não fui que afirmei, mas não são poucos os estudos mostrando que os gdes atletas não são nada “alongados”… índices elevados de flexibilidade aumentam as chances de lesão. Mas há um problema mto maior…. o que é ser encurtado/alongado? Mais flexibilidade está longe de significar melhor desempenho.

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    • Danilo Balu disse:

      Sobre BCAA… já entupiram atletas de BCAA, sem efeitos. Já fizeram o que prega seus defensores, sem efeito. A teoria é bonita, deveria funcionar, mas ele não funciona. Simplesmente é inócuo, inútil, farinha.

      Meias de compressão mesma coisa…a teoria é linda, comprimiria, recuperaria e tal. Não melhora desempenho em NADA. Argumentam que recupera. Não se provou. Pior, mesmo que ela nos recuperasse, não conseguem provar que isso seja benéfico a médio e/ou longo prazo. PODERIA ajudar em curto prazo (provas de revezamento, campeonatos curtos, treinos próximos um do outro). Meias de Compressão é um baita de um placebo… o único estudo mais ou menos que tentou replicar um placebo deu o de sempre: é puro estilo, zero melhora no desempenho. Falar que uma circulação melhorada traria vantagens não é errado… mas eles que provem que a meia faz isso. Até agora eles NÃO conseguiram. Mais: que provem que isso traga benefícios em seu uso sistemático… tb nunca provaram.

      Só há 3 tipos de profissionais que defendem o uso desses 2:
      1. O que não se atualiza;
      2. O que mente;
      3. O que tem um interesse em sua venda.

      Sobre o alongamento, mais flexibilidade, melhor, é mais saudável. Se vc fizer isso antes ou depois do treino porque acha que isso vai te trazer menos lesões, está perdendo tempo. O alongamento como treino de sua flexibilidade pode ser feito a qq hora. Se vc tem flexibilidade boa, pode dispensá-lo.

      Abrax

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  4. Ana Minarelli disse:

    Gostei do seu texto… muito coerente… o que vc escreve não serve somente “prás corridas”, mas para a vida… Abs e bom fds!

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  5. Alexandre disse:

    Muito legal Balú essa sua reflexão! Como pesquisador me deparo frequentemente com essa dualidade. Geralmente termino as aulas sobre mitos do “alongamento” ou “tênis de corrida” com uma frase do Freud: “…A fantasia resiste aos argumentos e só se transforma quando o próprio sujeito descobre a sua origem.“…Abração

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  6. Hélio Shiino disse:

    – Como disse certa vez Carl Sagan: “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar“. –

    Apenas complementando a sua citação.
    “Pensamentos sem conteúdos são vazios, intuições sem conceitos são cegas” – (Kant, Crítica da razão pura, 1996, p. 92).

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  7. Nishi disse:

    Balu, você disse que aquecer é bobagem?

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