De Meb, Ariely e do porquê ninguém liga pras suas corridas

Um escritor pode vir e falar que dentre as milhares de pessoas em uma corrida, sempre haverá uma história interessante o suficiente para ser contada e lida. Eu tenho enormes dúvidas. O enorme desbalanço entre a vontade dos corredores saírem falando de si próprio em blogs/redes sociais e o baixo interesse dos demais, se explica pelo custo (lê-los); é uma questão de oferta e demanda. Se estivessem vivos, Freud e Jung fariam muito dinheiro explicando nosso comportamento digital tão louco, de uma geração que se acha especial, diferenciada e interessante, mas que é no máximo só mediana e ainda assim espera muitos aplausos.

Em uma palestra interessantíssima de Dan Ariely no TED, talvez tenhamos um pouco das respostas. Em experimentos, eles avaliavam a percepção de valor por parte de quem faz e de quem avalia algo. Se traçarmos um paralelo, é como se o corredor em seu esforço atlético avaliasse o seu esforço (ex: correr 10km) e o interlocutor (um ouvinte não necessariamente corredor) fosse avaliá-lo. Nos experimentos, as pessoas avaliavam seu próprio trabalho braçal de forma desproporcionalmente muito melhor do que os avaliadores. Ou seja, a diferença entre valor dos 2 virava um abismo.

meb boston

O que isso tem a ver com corrida? Não muito. Mas não pouco. O especial é aquilo que ocorre pouco, é singular, diferente, quase único. Não sei quanto a vocês, foram poucas, mas bem poucas as histórias que li até hoje sobre corrida que pagassem meu tempo investido. Com livros, foi assim apenas com: PreThe Perfect Mile, Correr e Unbroken. E é esse o desafio de quem tem que cobrir uma corrida. Corridas existem aos milhares. São 500.000 os concluintes de Maratonas só nos EUA. Por ano. Não há nada de tão especial que seja feito por tanta gente assim. Nada! A menos que…

A menos que seja algo muito especial. Que seja difícil, improvável, desejado por décadas, que venha no momento certo e deixe incrédulo até os que estavam ao vivo assistindo e acompanhando tudo. E que seja antes de tudo, humano. Meb semanas atrás fez isso. Melhor do que isso. A quem estava em Boston escrevendo histórias improváveis e interessantes, não foi preciso vasculhar entre centenas de pessoas tentando achar algo interessante. A melhor dentre todas as histórias estava ali na nossa frente, aos olhos de todos, liderava a Maratona e era singular.

Melhor do que qualquer outro sujeito mediano esperando aplausos como nós, o melhor em Boston foi ver que a melhor história estava ali, na frente das câmeras. E correu magistralmente como poucos, como muito poucos.

*estou no primeiro terço do “Era uma vez um corredor” e li o excelente Bowerman and the Men of Oregon.

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10 pensamentos sobre “De Meb, Ariely e do porquê ninguém liga pras suas corridas

  1. Maratona não é nada tão especial no sentido de que é algo que qualquer adulto com boa saúde pode fazer. Mas é especial no sentido de que pouquíssima gente faz. 500.000 pessoas num país com mais de 300 milhões de habitantes não chega a 0,2% da população.

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  2. Alexandre Andrian disse:

    Concordo com o Daniel… aqui no Brasil esse % seria ainda menor no caso da maratona. Mas acho que os atletas de elite da maratona (e suas historias) estão um pouco banalizados… de maneira geral, o publico nao conhece o pessoal da ponta… nós, mais interessados no assunto conhecemos Meb, Kirui, Mutai, etc… Mas para o pessoal que corre mas não se interessa esse é mais um “keniano”

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  3. Adriana Piza disse:

    Muito bom esse TED, dá para traçar um paralelo com o artigo do Matt Fitzgerald : “Should You Care About Your Race Times?” que diz:

    “Human psychology is designed in such a way that we derive a great and lasting sense of pride and self-respect from completing difficult and meaningful tasks. That’s what makes crossing a marathon finish line for the first time such a magical experience for so many runners. It is satisfying in direct proportion to how difficult it was to get there.”

    Nesse boom de corridas dos últimos anos….. a maioria não corre por performance, mas aí fica muito fácil, precisa de alguma coisa para a tarefa ficar mais difícil. Aumentam o desafio aumentando os kms. Para mim, essa é uma das explicações do por que as maratonas e ultras entraram tanto em moda.

    Aí aguenta cada uma dessas 500.000 pessoas relatando seu feito….como se fosse único!!

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    • Danilo Balu disse:

      Sim! Correr rápido cansa e machuca. E correr 10-21km tem mta gente… daí vc vai pros 42km, mas só nos EUA são 500.000/ano, mta gente! Então vc aumenta os km pra ser especial e acha que todo mundo está interessado em ouvir vc falar disso.

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  4. Muito complexo o conteúdo apresentado Há uma mistura do emocional com racional,uma comparação com o Primeiro mundo com uma inclinação a esquecer o terceiro mundo.A Maratona ser especial,especial a Rainha das Corridas ? 42km é glamouroso ,é lindo ,fantástico e poucos no Brasil conseguem atingir bons índices(raríssimos) mas são especiais,porque consegue quebrar seu índice .Os bons correm porque gostam de correr,não estao preocupados com um kit,uma arena que vira eventos,corredor de maratona é corredor mesmo.. Os súditos 10km e 5km são a cartilha de um maratonista e de um ultra,impossível não passar por estes dois percursos ,eles são os grandes mestres ou melhor os PHDS de bons corredores que queiram aventurar na rainha.ou na superR

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  5. Concordo. Escrevo meu blog para mim mesmo, para me lembrar das corridas. E às vezes serve para fazer amizades.

    Estou parado no Unbroken. Não consegui ler até o fim. Ô livrinho chato quando entrana parte da guerra…

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