Bate-papo (supervalorização dos KMs corridos)

Na noite de 5ª feira passada tive o prazer e oportunidade de dividir o palco com o Sergio Xavier (Runner´s World) e o Rodolfo Lucena (colunista da Folha de SP) num ciclo de palestras e bate-papo do SESC Santo Amaro (SP). O tema? A supervalorização dos quilômetros percorridos.

Vocês sabem bem o que eu penso. Virou uma mania desmedida, apressada e que só Freud explica das pessoas começarem a correr sistematicamente pela primeira vez após décadas de sedentarismo e já se planejarem pra correr 21km ou 42km nas suas próximas férias.

Do ponto de vista fisiológico, correr 21km é muito mais fácil do que parece. Correr bem é outra história! Exige (muito) treino, dedicação, disciplina, paciência ou uma combinação de genes africana. Do ponto de vista biomecânico, correr 42km requer tempo, muito tempo. Um tempo que as redes sociais não têm para esperar. Então atropelamos as fases. De novo, pra mim, é mais coisa de terapia e insegurança do que inexperiência. E ninguém é pior por isso, não se ofenda!

Antes de batermos em treinadores que aceitam o desafio “irresponsável”, nunca nos esqueçamos da pressão econômica, afinal, não vivemos no mundo ideal. Como bem diz a Adriana Piza: se você fala que corre, mas não maratona, as pessoas olham quase que como se fosse estranho ou menor. Acontece com ela, acontece comigo, acontece com vários.

Talvez pelo quilômetro ser a unidade mais fácil e direta de medida, ele ganhou essa importância exacerbada. Não sei! Mas são justamente eles, não importa a velocidade, a coisa que mais machuca na corrida. Aí chegamos às lesões, outro tema que fascina o amador. De repente nós 3 nos vimos cercados de pessoas perguntando muito sobre qual o melhor tênis e o que fazer pra não se machucar.

Terceirizar a culpa é uma mania do ser humano e jogar a responsabilidade de nos blindar das lesões nós colocamos quase que completamente no calçado. Se não der certo, a culpa é da marca A, M ou N, não nossa. Pagamos um treinador, que sabe tanto quanto um dado a chance de lesão num ciclo de treinamento, para que ele nos proteja. Ele não consegue e não sabe (apesar de cobrar por isso) e vira um dos vilões, assim pulamos de profissional em profissional.

O ser humano tem esse desejo inerente de estar no controle das coisas. Tem a ilusão de que dá pra simplificar o complexo. Seja com tênis ou treinador, vamos buscando a solução pra tudo, de lesões a desempenho passando pelo peso. E quando o acaso se alinha e ficamos um tempo “bem”, mesmo sem saber a real causa, nos decidimos pelo que devemos fazer do agora em diante. Vida longa ao acaso! Ela salva a reputação de muito profissional.

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15 pensamentos sobre “Bate-papo (supervalorização dos KMs corridos)

  1. André Cruz disse:

    Belo tema esses dos kms.
    Corri a minha primeira maratona no ano passado, mas estou pensando seriamente em ficar nos 21 esse ano, até porque tenho muita coisa para fazer nessa distancia.

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  2. Andre Berlesi disse:

    Muito bom! Parabéns Balu, opiniões coerentes como as dispostas em seu texto são cada vez mais raras quando o tema abrange o mérito dos corredores.

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  3. liporati2002 disse:

    Dá prá simplificar sim. Eu fiz. Retirei estes dois itens da equação: calçado e treinador. Agora, quando surge uma lesão, eu tenho certeza que não é necessário trocar nem de calçado, nem de treinador!

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  4. Sobre todo mundo querer correr 42 km e se considerar maratonista eu digo: Praticamente qualquer um termina uma prova de 42 km. como diz o Balu, não há nada de tão especial nisso. Mas correr a maratona com qualidade é outra coisa, VIVER a maratona é outra coisa. Sobre treinadores, cheguei à conclusão que corredor amador não precisa de treinador. Já temos pressão suficiente em nosso dia-a-dia, não precisamos da pressão da planilha e do treinador. E os treinadores acham que somos atletas no, mínimo, atletas semi-profissionais. Nas duas últimas vezes que tive treinador acabei de machucando, e a culpa não foi só deles, foi minha também, pois com a pressão da planilha e pra não fazer feio diante do treinador muitas vezes exageramos nos treinos. Cheguei à conclusão de que não vale a pena. Eu mesmo estou fazendo minha “periodização”, e hoje tenho 2 x 6 x 400 com 1´30″ de repouso entre as repetições e 2´30″ entre as séries.. Uhhh.. fazendo um treino chique desses me sinto o próprio Bekele treinando pra maratona de Paris.

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  5. Angela disse:

    Texto muito inteligente! Amei!!!

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  6. Enio Augusto disse:

    Verdade. Eu já descobri que gosto de correr até meia. Maratona precisa de treino. Como não quero só completar nem treinar tão a sério, maratona está riscada da lista de provas.

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  7. Estevam disse:

    O acaso, sempre ele. Muito bom!

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  8. Peraí, se juntarmos todos os concluintes de todas as maratonas do Brasil dá quantas pessoas? 6.000? 10.000 no máximo. Ou seja, só a maratona de Nova York tem mais que o dobro de concluintes que todos os maratonistas brasileiros. 99% dos corredores brasileiros jamais terminou uma maratona.

    Então de onde está vindo essa pressão toda?

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  9. Excelente texto !
    Muitos correm e poucos realmente treinam.
    Se treinassem mais, saberiam esperar a hora certa para percorrerem mais kms.
    Os que realmente treinam sabem.
    E treinar não significa fazer qualquer coisa, é preciso muito conhecimento de causa.
    Parabéns!!

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  10. Márcia Cristina da Silva disse:

    Olá !participei do bate papo e achei muito interessante, quem corre tem mesmo esta neura dos kms na cabeça, mas pé no chão literalmente para os amadores sei la é assim que me vejo, correr é muito mas que cruzar a linha de chegada, uma qualidade de vida e uma postura nova em nossas vidas uma delas é o auto controle, um forte abraço e valeu pela presença.

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