Um pouco mais sobre as nossas provas …

O leitor Cesar Martins, baita corredor amador, mandou um comentário mais do que pertinente quando falei semana passada sobre a Maratona de Boston e a comparação equivocada com as provas brasileiras. Ele nos relembra daquilo que sabemos: de um modo geral, as provas no Brasil oferecem brindes e mimos demais aos participantes, seja por exigência ou (mau?) costume dos clientes.

Só acho que o Cesar derrapa apenas em num ponto. Para ele, assim como uma “escola jamais poderia considerar um aluno como cliente, os organizadores de corridas não deveriam considerar o corredor como um cliente”. Cliente na prática é quem paga, não quem desfruta do benefício. A criança não é cliente, mas seus pais os são. E todos sabemos muitas histórias de pai que foi dar carteirada em colégio quando era o filho quem deveria tomar uma sova. Organizadores fazem provas, não estão lá educando atleticamente quem quer correr 10km. Até por isso há conflitos de interesses que beiram o absurdo. Faça um teste: você consegue entrar na listagem oficial de um evento se agir de má fé e ligar 2ª feira reclamando que seu resultado não foi publicado. Obviamente que não estou sugerindo que faça isso!

Uma das maiores reclamações de quem corre um pouco mais rápido é a ausência de baias diferenciadas por ritmo que faria a largada e a prova fluírem melhor para todos. Mas basta um exercício rápido que você vê o quanto é difícil haver interesse. Olhando os resultados das provas você constata que basta um mínimo de esforço pra você entrar entre os 10% mais rápidos. 10% é uma minoria silenciosa. Largada por onda, pelotões e marcação exata de distância, são itens que só passarão a ser obrigatórios em nossas corridas quando houver demanda por parte de quem corre.

Entendo perfeitamente a frustração e desapontamento de atletas mais rápidos em eventos grandes aqui no Brasil, mas não sou muito otimista com a característica técnica de nossas provas num futuro próximo. Não vai mudar muita coisa, não. Por que eu acho isso? Alguns já sabem, mas a paulista CORPORE anunciou o cancelamento de uma de suas melhores e principais provas, a de abertura do calendário, por falta de patrocinadores. Até onde eu sei, esta foi a primeira prova com largada em onda no país. Sintomático ou não do que o brasileiro realmente espera e exige em suas corridas??

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16 pensamentos sobre “Um pouco mais sobre as nossas provas …

  1. Minoria é, mas silenciosa não. Ouço essa reclamação toda semana no mínimo.

    Por outro lado se são só 10% nem precisa de largada em ondas. Tirando a São Silvestre e uma ou duas provas mais cheias o resto tem 5.000 corredores no máximo. 10% disso dá 500. Ai não precisa de larganda em ondas é só separar uma baia na frente para esses 500 e pronto.

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    • Danilo Balu disse:

      Vc ouve semanalmente tão somente porque está inserido nela… pergunta pra menininha que faz 5km em 40´se ela ouve isso…

      Parece fácil fazer uma baia de 500 pessoas, mas custa e dá trabalho. Por que fazer? E a lei do mínimo esforço?

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      • Há, atualmente faço 5k em 29 min de forma que não sou tão mais rápido, Largo sempre lá no fundo.

        Sem dúvida custa e dá trabalho fazer uma baia separada mas é mais fácil do que fazer largada em ondas, coisa que inclusive exige um know-how que imagino que poucos no Brasil tenham.

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  2. Cesar Augusto Martins disse:

    Balu, você enxergou por um ponto de vista um pouco diferente do que eu quis colocar. Exemplificando, o que eu tentei dizer foi que, numa faculdade particular séria, o aluno (cliente) paga pelas aulas e não pelo diploma. A relação atleta organização não deveria divergir tanto dessa filosofia, ou teremos distorções graves, que você mesmo apontou. Eu olhei pelo lado onde o atleta é o protagonista. Os patrocinadores e os espectadores seriam os clientes. É assim que acontece em muitos eventos esportivos, concorda? Mas quando trata-se de corrida de rua esses papéis se sobrepõem, se confundem. Mais ou menos assim: o cliente paga para ser o protagonista e exige ser tratado como estrela principal. À medida que a organização trata o atleta dessa forma, o evento deixa de ser uma competição esportiva. Daí, obviamente, os que vão esperando uma experiência de competição saem frustrados.
    E esse negócio de divisão por ritmo é bem o que você disse mesmo. Não podemos ter muita esperança de melhorias nesse aspecto. Mas, se assim é e assim será… então voltemos ao assunto principal do seu post: eu, corredor competitivo não profissional, que não sou bem vindo nessas provas brasileiras, vou continuar sim elogiando as corridas estrangeiras. E não admito ser criticado por isso 🙂 Por que? Meus tempinhos mixurucas não me credenciam para um pelotão diferenciado na Maratona de SP, nem na São Silvestre e nem em várias outras que fazem aqui. No entanto, esses mesmos tempinhos mixurucas me permitiram largar a maratona de Nova York à frente de uns 50 mil corredores. Sim, larguei lá na frente, logo atrás convidados de elite e pude correr no meu ritmo, do início ao fim. Assim como eu, milhares de outros corredores tiveram seus ritmos respeitados, seja largando mais na frente, no meio ou atrás. E eu posso provar facilmente que em qualquer outra prova estrangeira, seja grande ou pequena, seremos tratados com o mesmo respeito. Este é só um aspecto de respeito aos atletas competitivos, que não temos aqui. Há vários outros que podemos discutir se for o caso. Ah… sim, claro. Em qualquer quesito “mimo” devemos estar muito à frente mesmo, nem precisamos discutir.

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  3. Pra estar entre os 10% mais rápidos de uma das maiores corridas aqui de Curitiba, que aconteceu neste sábado, bastava 45:50 nos 10K: http://www.cronoserv.com.br/resultados/2014_02_09_UNIMED_10K__TODOS.TXT
    Nada de outro mundo, de fato.
    E acho que menos de 20% destes 10% se importam com tudo isso que você está escrevendo. Simplesmente vão lá e correm, sem se importar se vai ter onda ou não.
    Quem quer correr forte simplesmente vai mais cedo para o local da largada.

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  4. Leonardo disse:

    Não tem baias porque só 10% terminam abaixo de 45′ OU só 10% terminam abaixo de 45′ porque não tem baias? Eu só um dos mais rápidos que não participa deste tipo de prova mas, mesmo assim, acredito no ponto do Balu. Mesmo sem o boicote os rápidos seriam, digamos, uns 20% o que ainda não tornaria lucrativo organizar baias e ondas. A minoria quer o privilégio das baias? Paguem mais caro. O pelotão de Elite C/Premium nas provas da Yescom é o exemplo. Ou vão em provas “low profile”, aquelas no estilo de antigamente: sem camisa, pouca estrutura, sem medalha, enfim sem mimos.

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    • Cesar Augusto Martins disse:

      Leonardo, baia não é mimo. É item básico em provas grandes (aquelas com milhares de inscritos). Esse tipo de organização não beneficia apenas os x % mais rápidos. Beneficia a todos aqueles interessados em competir, em vencer seus desafios, melhorar seus tempos. Aliás, estou chocado com o que tenho lido aqui. Parece que todos já estão devidamente catequizados por essa maravilhosa geração de organizadores high profile. “Desafio? Tá brincando? Eu escolho a prova pela medalha, camiseta e outros presentinhos!” Vão me desculpar pelo desabafo, mas… quem pensa assim não faz ideia do que é gostar de correr. Sim, eu já participei de bate-sacos inesquecíveis e guardo minha medalhinha de “honra ao mérito” com muito carinho.
      Vocês, que não gostam de correr, não fazem ideia do que é largar tendo que atropelar uma multidão de mais lentos à sua frente. Para poder largar no meu ritmo numa maratona de São Paulo, eu abriria mão da medalha, da camiseta e até da água no percurso. Nada disso é mais importante do que ter respeitado o meu ritmo. Largar tranquilamente, no ritmo planejado é vital. Sem isso, competir uma prova é absolutamente inviável. Não é mimo! É respeito!
      Esse pelotão C é a própria jabuticaba brasileira. Em qualquer outro lugar do mundo seria ridicularizado pelo povo. Aqui não. Até isso resolveram explorar para ganhar mais. Nenhum corredor que se preze deveria aceitar uma coisa dessas!
      Eu ia explicar o quão complicado é, para um corredor competitivo, ter que chegar horas antes para tentar pegar um bom lugar na largada da São Silvestre. Aquecimento, esquece. E eu ia dizer também que pouco adianta chegar cedo, pois seria frustrante ter que perder vários minutos atropelando o pessoal do 6min/Km que larga no pelotão C. Mas o que adiantaria dizer isso para pessoas que acham que os organizadores estão certos, pois precisam lucrar. Devo estar falando com pessoas gostam de corrida apenas como business, não como corredores. Então… esquece.

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      • Danilo Balu disse:

        Cesar, desculpe falar assim, mas acho que vc mão entendeu mta coisa. Primeiro que é um erro enorme alguém querer definir o que é “gostar de correr”. Há quem corra devagar e sempre, outros que só correm >42km e outros que só correm 1500m. Qual o certo? Não existe. Melhor? Tampouco. Cada um faz o seu “gostar de correr”. Cada um faz o que acha melhor pra si, até pagar mais pra pode largar na Premium. Aceitar o que faz hj o mercado não é concordar ou ser condizente. Negar que é financeiramente mais rentável vc deixar de lado aspectos técnicos que são essenciais apenas a uma minoria mais rápida, é negar o óbvio. Eu continuo escolhendo as provas que “me respeitam”, pra usar um termo que vc mesmo usou, o respeito. Mas vc se esquece de um princípio básico nos contratos e relações econômicas, mto do que é feito é feito orientado pela direção dos incentivos. E qual o incentivo ($$$) de fazer baias? Me diz…

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      • Cesar Augusto Martins disse:

        Também peço desculpas se alguém se ofendeu com o que eu disse. Mas notem que eu jamais disse que “gostar de correr” tenha a ver com performance. Não sou eu quem fala dos 10 ou 20% mais rápidos. Talvez esse seja um complexo nosso, que faça as pessoas aqui aceitarem a existência de coisas como o pelotão C. Cada um deveria refletir um pouco sobre isso.
        Eu entendi tudo direitinho sim, Balu. O debate foi bom. Mas acho faltou cada um se olhar como corredor e dizer o que pensa sobre o que seria ser respeitado pelo organizador. Todos analisam só pelo lado do organizador e do negócio. Foi só isso que eu quis dizer quando me referi a “gostar de correr”. Absolutamente NADA a ver com performance.

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      • Danilo Balu disse:

        Eu acredito MTO no papel e na força do corredor qdo ele escolhe justamente e tão somente as provas que o respeitam. São poucas as provas no Brasil que hj eu me inscrevo. Por quê? Não sou tão rápido como vc, mas por causa de todo o perrengue que vc deu de exemplo! Então, eu NÃO entro em prova na qual eu me sinta desrespeitado. Eu acho que é esse nosso papel como consumidor. Nosso papel tb é o de cobrar e não prestigiar corridas que fazem de qq prova uma micareta. Esse é o nosso “papel”: escolher bem e cobrar e exigir mudanças. Abrax

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      • Cesar Augusto Martins disse:

        Pronto. Isso foi de encontro com minha linha de pensamento. Só que então, como corredores, temos que dizer como nos sentimos e o o porquê de não escolhermos participar desta ou daquela prova. É isso que estou tentando fazer aqui: sou taxado de esnobe por preferir correr lá fora a correr aqui. Daí explico que a minha maior reclamação é não ter baias de largada. Indignado, ouço aqui que divisão em baias é um mimo caro e que corredores rápidos deveriam pagar para largar no pelotão C. Respiro profundamente e, com paciência, explico que não tenho como correr uma Maratona de São Paulo ou São Silvestre sem largada em baias, como é hoje. Pode até faltar água, mas sem baias não dá.
        Caros amigos, não precisamos entrar no aspecto de quem é mais rápido ou mais lento. Estamos falando de largar numa boa, chegando ao local tranquilamente, aquecendo, posicionando-se na largada sem empurra empurra, começando a corrida sem estresse, concentrado, num ritmo condizente com o de cada um, sem atropelar ou ser atropelado. Percebam que isso não tem NADA a ver com diferença de performance. Só tem só a ver com gostar de correr, de se preparar para uma prova grande e ter uma boa experiência participando dela. Dizer que os mais rápidos deveriam pagar para largar no pelotão C, sem querer ofender… isso é forte indício de complexo de inferioridade, que não deveria existir em corridas de rua, onde cada um tem seu ritmo e seu objetivo particular. Ninguém precisa ficar jogando confete nos mais rápidos muito menos zombando dos mais lentos.
        Bom. Para os que ainda não se colocam neste debate como corredores e querem analisar o assunto pelo lado da lucratividade dos organizadores, aqui vai: vocês dizem que é caro, mas… caro quanto? Uma prova com mais de 3 mil inscritos não justificaria uma divisão em baias? O lucro cai muito? Os que apontam isso não dão exemplos quantitativos.São afirmações vagas, argumentações insuficientes, que não convencem ou não servem para formar opinião. Portanto, ainda fico com minha opinião simplista: se lá fora os organizadores podem fazer divisão em baias, aqui também poderiam.
        Sinceramente falando, eu suspeito que isso não tenha a ver com alto custo, como alguns aqui colocam. Talvez seja algo meio que filosófico, ético, cultural. Talvez nosso povo tenha dificuldade em separar mais rápidos e mais lentos. Sempre que se fala em separar por performance as pessoas se exaltam achando que seria um preconceito com os mais lentos. Mas não é!!!!

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  5. Adriana Piza disse:

    Não é de hoje que a Corpore está com problemas de patrocinadores, e a duras penas conseguiu realizar as provas do circuito no ano passado. Por pura curiosidade dei uma olhada no número de participantes nessa prova de abertura desde 2005. Havia 8286 em 2005, chegou a 11740 em 2009 e aí….queda livre com 6500 (2010), 5835 (2011)….chegando a 4006 no ano passado. Se pegar outra prova clássica da Corpore, a 10k Zumbi dos Palmares, a partir de 2009 só caiu, passando de 9450 nos bons tempos (2006) para algo em torno de 7349 em 2009 e aí….4290 em 2011, 3269 em 2012 e….2209 ano passado (2012 sai o patrocínio da Samsung)….Nas provas, a Corpore não prioriza kits atrativos e outros mimos…embora tenha investido um pouco em alguns mimos como o espaço mulher….Por outro lado, prioriza e muito a questão da largada, com baias ou em ondas….que como você disse, importa para pouquíssima gente. Não sei se isso tem a ver com essa queda significativa de participantes, me parece que sim. Com o aparecimento cada vez mais de provas cheias de mimos….a Corpore vai esvaziando…nem os tais Rankings (fidelidade, técnico, equipes, corri todas…) segura o corredor, pois acho que isso interessa para pouquíssimos. Não sei se teria outra saída a não ser mudar o caminho…

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    • Danilo Balu disse:

      A CORPORE foi uma espécie de montadora de veículo dos anos 80 que viu seu mundo ruir qdo chegaram as fabricantes “importadas”… vieram os novos modelos, itens de segurança, tecnologia, melhores preços…
      A CORPORE era solitária num mundo que viva um boom. Vieram Vetor, Yescom, Iguana, Gayotto… é impossível não dizer que ouve comodismo, letargia… normal! Os tempos são outros. Ela vai ter que se enxugar e mudar mta coisa. Mas pra mim é sintomático que uma organizadora que tenha cuidados técnicos seja uma das que mais sofra.

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      • Cesar Augusto Martins disse:

        Balu, você deveria (ou deve) saber que foi a Corpore quem começou com essa onda de mimos (medalhas para todos, camisetas para todos, etc). A Contra-Relógio também teve papel importantíssimo nisso. Lembro-me que no início dos anos 2000 o pessoal da minha equipe de corrida dizia que quem corria provas da Copore eram só os “frutinhas” (pode perguntar a outros dessa época). Só que a Corpore sempre esteve atenta aos aspectos técnicos, de competição propriamente dita (assim como a CR). Esses outros que vieram em seguida pegaram o vácuo da Corpore, mas inflacionaram os mimos, os preços e criaram distorções terríveis em relação a uma tendência internacional que vinha sendo seguida pela Corpore.

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  6. Enio Augusto disse:

    Acredito que a largada sendo dividida por baias já ajudaria, mas são poucos os interessados. Só vou agora nas que me fazem bem e gosto de correr, mesmo sem divisão de largada. Vai demorar para ter isso no Brasil. Como me recuso a ir para o pelotão da frente e ficar 30 minutos em pé, largo lá atrás e tento manter uma linha (quase impossível). O que vale é o tempo líquido mesmo.

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