De Super-Homem, corredor amador e Filosofia*

*o texto abaixo escrevi para a edição de Agosto da Revista Contra-Relógio. Absolutamente longe de querer contestar sua não-publicação, fiquei por dias me perguntando se havia falado muita besteira. Gostaria que lessem. Fiquei 6 meses em  lê-lo, mas ainda me vejo 100% nele. Por isso mesmo resolvi reaproveitá-lo aqui sem retoques.

22/Julho/2013.

De Super-Homem, corredor amador e Filosofia

Dias atrás fui ver o filme “Super-Homem” no cinema e me peguei pensando em algumas frases interessantes nele. É aí que o debate meio filosófico encontra o corredor. Em determinado momento um personagem diz algo como: “nós queremos que aquilo em que acreditemos, faça sentido (na nossa cabeça)”.

Isso fez lembrar-me de uma corredora. Aborrecida com uma repentina lesão no pé, ela foi ao médico. Não gostando da explicação, ela foi a outro e depois outro. E assim foi pulando de médico em médico querendo não só uma explicação, ela queria se convencer, queria que a explicação da dor fosse condizente com o que ela achava. Mais que melhorar, ela queria concordar e entender a dor.

Em outra passagem do filme, há um dilema entre o revelar ou não uma grande verdade às pessoas. Quem defendeu manter o segredo argumentou: como você acha que as pessoas vão lidar quando você mudar totalmente a verdade delas? Temos medo daquilo que não conseguimos compreender¹.

Então voltamos à “minha” corredora, mas também ao seu médico. A lesão era mesmo estranha. Do mesmo jeito que veio, mesmo sem tratamento e correndo, ela passou. Ninguém sabia, mas ela foi inventada pelos médicos consultados. Reforço: nenhum deles sabia o que era, mas inventou um diagnóstico. E isso me leva a outro episódio.

Em entrevista informal sobre meu blog, fui perguntado sobre quais livros e autores eu lia. A pessoa deduziu que eu ainda lia muito na área de Saúde. Ledo engano. Leio atualmente quase nada na área. Meu livro atual é sobre Economia Comportamental (“Pense Rápido e Devagar”) do Daniel Kahneman, laureado com o Nobel.

Assim como outros profissionais dessa área como Dan Ariely ou mesmo Gary Taubes, mesmo sem correr ou estudar Saúde, eles dizem mais coisas úteis na área de Treinamento do que Treinadores, Nutricionistas e Médicos. O jornalista Taubes explica melhor sobre Nutrição que qualquer Nutricionista brasileiro, assim como Ariely (que não pode correr) compreende nossa irracional obsessão por tênis com “amortecedores” melhor do que seu treinador patrocinado ou o ortopedista arrogante da TV.

Entender questões muito complexas na Saúde como o porquê alguns emagrecem muito mais rápido ou o porquê nos lesionamos mesmo com tênis caríssimos é algo que incomoda o profissional que passa 10 anos estudando, mas não consegue identificar ou tratar um problema. Muito mais que vaidosos ou teimosos, temos uma aversão a admitir que estivemos tão errados esse tempo todo.

Meu “problema” com profissionais da área da Saúde está longe de ser pessoal. É conceitual. Simplesmente não acredito em quase nada do que dizem nesses assuntos, seja porque têm interesses vendendo suplementos no consultório ou recebendo produtos de marcas esportivas. É pior. Reescrevo o que muito bem disse uma amiga treinadora, Giovana Kaupe: o dogma é algo muito forte na área da Saúde, fazendo com que acreditemos cegamente no que aprendemos de profissionais (ex: professores, doutores ou Médicos) que supostamente saberiam mais do que nós, inclusive falsamente provando com Ciência mal feita esses dogmas equivocados.

¹People are afraid of what they don’t understand.

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8 pensamentos sobre “De Super-Homem, corredor amador e Filosofia*

  1. Hélio Shiino disse:

    (…) Reescrevo o que muito bem disse uma amiga treinadora, Giovana Kaupe: o dogma é algo muito forte na área da Saúde, fazendo com que acreditemos cegamente no que aprendemos de profissionais (ex: professores, doutores ou Médicos) que supostamente saberiam mais do que nós, inclusive falsamente provando com Ciência mal feita esses dogmas equivocados. (…)

    Indo mais além. Não apenas na área de Saúde mas como em qualquer outra área. O aprendizado, a leitura… Já dizia o humorista George Carlin: “Não ensine seu filho apenas a ler; ensine-o a ler e a questionar o que está lendo.”

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  2. Luis Oliveira disse:

    Balu, eu tenho uma atitude parecida com a da sua amiga corredora (e que deixa minha mulher maluca). Mas ela se reflete em um comportamento diverso, pois tenho uma enorme resistência em procurar um médico para qualquer dor/lesão/aflição inespecífica ou difusa. Minha experiencia me mostra que as chances de sair de uma consulta com uma receita de analgésico genérico são enormes, pois o médico não terá tempo, paciência, habilidade ou interesse em fazer um diagnóstico a la Dr. House.

    Outro problema é outra crença em que os problemas (todos eles) podem ser divididos entre (1) os que não tem solução e (2) os que se resolvem sozinhos. Logo…

    Enfim, seu “problema” com profissionais de saúde assertivos não é um problema que você deveria ter só com eles. Poucas áreas da vida e NENHUMA área da ciência comporta declarações peremptórias (é até engraçado escrever algo tão pueril). Por outro lado, isso tem um custo, pois o mundo recompensa (e não apenas profissionalmente) os assertivos, os peremptórios, os que ignoram o que não sabem.

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  3. Paulo Sousa disse:

    O texto é óptimo e acho que a maioria teria de ser levada a concordar com ele. Sim, também consulto mais do que um médico quando tenho uma mazela, porque ficamos realmente com a ideia que aquilo que nós sabemos aquilo que temos… só vamos fazer um diagnóstico para comprovar e não para determinar o problema.

    Abraço Atlântico

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    • Paulo Sousa disse:

      Correcção da 2.ª frase do meu comentário: “Sim, também consulto mais do que um médico quando tenho uma mazela, porque ficamos realmente com a ideia que nós sabemos aquilo que temos…”

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  4. Giovana Kaupe disse:

    À época dessa conversa, também comentei um pensamento que assim como esse texto, ainda é verdade pra mim: “perigoso não é mudar de opinião, perigoso é manter sempre a mesma”. Parabéns pelo excelente texto (e visão) e obrigada pela honra de ser citada, querido amigo!

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  5. consrel disse:

    Parabéns! Ótimo texto. Fiz bem em não ter renovado a assinatura por conta da sua saída.

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  6. Cesar Augusto Martins disse:

    Quando a gente quer uma resposta EXATA, procuramos um profissional de EXATAS. Tipo um engenheiro, um matemático, um físico. Um profissional da área médica, um economista, um historiador, um nutricionista ou qualquer outro que não esteja na área de exatas, nunca poderia emitir um diagnóstico certeiro. Esses que fazem dessa forma devem se achar algum deus (mas não passam de picaretas). Melhor acreditar naqueles diagnósticos que apenas analisam, levantam hipóteses, que criam dúvidas e nos fazem refletir.

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